O CONSUMO DE EXPERIÊNCIA

A MANEIRA COMO A SOCIEDADE MUDOU SUA FORMA DE CONSUMIR

Matheus Pronunciato – texto e fotos   (*)

Tente perceber a diferença entre estas três situações.

Primeira: você chega em um restaurante e vai até uma mesa. Ele não está lotado e você demora para ser atendido. A música ambiente está alta a ponto de você precisar falar em tom elevado para que sua companhia escute bem. O cheiro no ar é bom, mas de vez em quando o aroma que surge é de comida queimada. O garçom que chega na sua mesa para anotar o pedido não está de bom humor e parece criar uma pressão para que você faça seu pedido o mais rápido possível, pois ele precisa atender outras mesas. Ufa!

Segunda: você chega a uma lanchonete, é atendido, come, bebe e vai embora, sem mais surpresas.

Terceira: você chega em uma cafeteria. As pessoas que estão ali conversam calorosamente e a música ambiente é agradável e combina com o espaço. Inclusive, chama a atenção o fato de o espaço ser muito bonito! Os enfeites são coloridos e ganham destaque em meio à mobília amadeirada. Logo a atendente chega com um sorriso no rosto e, quando você se dá conta, ao invés de fazer o pedido, está conversando com a moça como se a conhecesse há dias. Quando a comida chega, é uma alegria a cada garfada.

Bom, a diferença é bem nítida, e há um ponto que apenas uma das três situações ofereceu: uma boa experiência. Não apenas positiva no sentido de o cliente estar satisfeito, mas sim uma experiência que envolve, que faz parte do motivo do cliente estar ali, de fazer a opção de consumo neste determinado estabelecimento.

A terceira situação descrita acima é muito parecida (se não um relato verídico) com uma visita ao Varanda Café, um pequeno bistrô localizado no bairro Bacacheri, em Curitiba, que leva a experiência do cliente muito a sério. Lá, a proposta é fazer as pessoas sentirem-se em casa e dar a elas oportunidades de se envolver com as propostas do local.

Varanda Café 032

O estabelecimento busca oferecer muito aconchego, intimidade, atendimento caloroso e produtos de qualidade, como se fossem feitos para pessoas especiais. Todos esses fatores, juntos, dispõem aos clientes um ambiente capaz de despertar vários de seus sentidos. O objetivo, então, é fazer com que ele saia de lá contente e com bons momentos para recordar. A dona e faz-tudo do bistrô, Bruna Gonçalves, explica que percebeu que “as pessoas possuíam uma carência de se socializar, estarem juntas umas às outras”, e por isso usa o Varanda como um ambiente para dar a oportunidade de os frequentadores se conhecerem, saberem suas histórias, para que agreguem e disseminem culturas diferentes.

Em visitas ao bistrô, não é difícil notar como a maioria dos clientes possui um laço especial com o local. Daniela Lima descobriu o Varanda tem pouco tempo, mas já se declara: “Eu gosto muito daqui porque é um lugar muito confortável, que faz com que eu adore gastar meu tempo, desde apenas para comer um bolo ou conversar com pessoas novas”.

Bruna diz ter uma visão mais humana sobre os clientes e defende que eles não possuem apenas uma necessidade que o bistrô deve suprir – na área de alimentação. “Esses clientes possuem diversas outras necessidades, entre elas, de ter mais contato com seus vizinhos e conhecer pessoas novas, e o Varanda consegue proporcionar isso”, explica ela. Além de tudo, precisam se sentir diferenciados: o estabelecimento tem que mostrar que eles não são apenas mais um depositando capital ali, e isso pode ser atingido com atendimento mais capacidade.

Varanda Café 053

Como já dito: o que o Varanda proporciona é uma experiência para ser consumida, que engloba desde a música ambiente, a decoração, as atividades que realiza, o cheiro de bolo no forno, o atendimento diferenciado, as poesias e obras de arte em cada canto (amadoras ou profissionais, todas confeccionadas pelos próprios clientes), etc. Esse novo modo de experiência como consumo nasceu de, justamente, necessidades que nossa sociedade construiu (ou recuperou) ao longo dos tempos.

As pessoas sempre esperam algo das empresas. No mínimo, receber com eficiência o serviço ou o produto pelo qual pagaram, ou ser bem atendidas em um restaurante que o amigo disse ter um atendimento excepcional. Isso quer dizer que as expectativas do consumidor devem ser sempre atingidas para que ele tenha boas lembranças dessa empresa e, no mínimo, volte a consumir nela. Mas muitas vezes isso não é o suficiente, pois a sociedade está cada vez mais complexa, e as organizações precisam se adaptar para continuar agradando e atendendo suas necessidades.

Uma solução é superar essas expectativas, seja oferecendo o serviço ou produto com uma qualidade superior que a prometida, ou envolvendo o cliente com algo que ele nem sequer estava esperando. As tendências contemporâneas de negócios, indicam que as empresas precisam ver seus clientes como humanos dotados de sentimentos e com necessidades plurais a serem satisfeitas. Fazer o consumidor associar uma boa lembrança com uma marca ou produto é o resultado de oferecer a ele uma experiência envolvente.

Muitas empresas procuram garantir ao cliente muito mais do que aquilo que ela promete. A companhia de motocicletas Harley Davidson, por exemplo, agrega em seus produtos mais do que o ato de possuir e usufruir um veículo de duas rodas. Uma pessoa que adquire um dos seus produtos leva muito mais do que um meio de transporte, pois consegue carregar um valor simbólico muito alto, a ponto de criar uma experiência. O mesmo acontece com outros produtos de marcas com nomes consolidados e almejados, muitas delas envolvendo o mercado de luxo.

A alta da experiência como forma de consumo pode ser entendida por causa da vida agitada da sociedade atual. As pessoas precisam sair de seus lugares comuns, fugir da rotina. Segundo uma pesquisa* do International Stress Management Association (Isma – Brasil), 70% dos brasileiros sofrem com estresse, e 69% dos entrevistados relacionaram o estresse com o trabalho. O cliente necessita muito mais do que algo para ingerir ou tocar, precisa ser envolvido. Pular de paraquedas é uma ótima analogia para entender o consumo de experiência: é um momento com vários sentidos envolvidos, adrenalina, aventura e, claro, fugacidade. Algo novo para a vida, algo para sempre carregar na lembrança.

* Fonte: A Tribuna Vitória (ES), quinta-feira, 30 de abril de 2015

 (*) Estudante de Comunicação Organizacional da UTFPR 

 

AS SENSORIAIS EXPERIÊNCIAS DO SEXO VIRTUAL

Hugo Oliveira (*)

Segunda-feira. É madrugada. O fim de semana foi moroso, demorou a passar, nada aconteceu. Costuma ser assim, pouca ação no fim-de-semana, pouca ação na vida do rapaz. Ele resolve acessar aquele site. Já fez um cadastro, mas usou pouco, acha que não vale a pena gastar dinheiro com isso. Desta vez resolve entrar e comprar alguns créditos, não apenas para ver as belas mulheres que se exibem e esbanjam simpatia, é, no fundo, para ter uma companhia, alguém para conversar.

Essa é a história de milhares de usuários e explica bastante o porquê de não ser à toa que a prostituição é dita como a mais antiga profissão do mundo. A necessidade sexual se mostra como um assunto que, apesar de ainda ser tratado como tabu, existe para a maioria dos seres humanos. Além disso, há a questão do sentimento intrínseco de solidão para muitas pessoas – sejam solteiras ou mesmo acompanhadas – alguns buscam atenção de formas diferentes.

Quem endossa a visão de que a necessidade de companhia se mostra tão importante na busca por esse conteúdo quanto a própria questão erótica é o usuário bebeto_cwb91: “A gente procura a menina não só pela beleza dela, as que batem um bom papo são as que curtimos mais”. E acrescenta: “Elas são exigentes também, não aceitam um cara que já vem mandando tirar a roupa”.

Se o contato humano parece cada vez menor, o mundo virtual encabeçado pela popularização da internet nos últimos 20 anos proporciona uma diferenciação até mesmo quando se trata de proporcionar a satisfação das tais necessidades – tanto afetivas, quanto sexuais. Hoje o panorama é bastante interessante de ser analisado, pois 13% das pesquisas em mecanismos de busca (ou seja, uma em cada oito buscas)* são sobre pornografia. Por outro lado, a procura por salas de bate-papos é inerente a cada usuário que tem acesso à rede, não importa em que época.

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Sites de pornografia onde se encontram desde fotos contendo nudez, até vídeos da prática sexual de maneiras exóticas são não apenas acessados, mas também extremamente populares.  E o tema serve como meio de troca de informações nas mais diversas plataformas de chat.

Uma prática de consumo de conteúdo que vem sendo popularizada são os sites que oferecem sexo virtual. Eles funcionam, basicamente, da seguinte maneira: o usuário interessado em ter a experiência de prática sexual por meio de interfaces virtuais acessa o site, encontra a pessoa que lhe agrada, paga por meio de créditos seu tempo e, então, finalmente pratica aquilo que estava procurando, seja um ato sexual por meio de câmeras, seja uma simples conversa com uma pessoa bonita e que está ali para dar atenção ao cliente.

A modelo Linda Missy, em entrevista ao programa Profissão Repórter, exibido no dia 4 de maio de 2016, oferece sua opinião, tanto em relação à sua atividade quanto ao ramo onde trabalha: “Quando comecei, até eu tinha receio de falar e hoje falo abertamente, tenho muito orgulho de ser uma stripper virtual. Se todo mundo soubesse como que é, veria que não tem nada demais”, sustenta Linda.

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Ainda assim, a experiência pode acabar se mostrando um diferencial em relação ao que já é comum na rede, com as diversas mídias anteriormente gravadas no caso da pornografia. A nova experiência traz a interatividade com uma pessoa como uma ruptura do espaço da indústria pornográfica que vinha se fazendo por meio de conteúdos que não respondiam diretamente ao consumidor, e das criações de conteúdo que repetiam métodos de comunicação estáticos, pré-internet.

O presidente de um site deste tipo de conteúdo adulto, declarou ao Profissão Repórter, do mesmo dia: “Eu acredito que o internauta hoje, que é o usuário de pornografia, está cansado de coisas gravadas. Ele não quer mais aquela ‘mesmice’, ele quer criar a cena dele”.

<http://www.covenanteyes.com/lemonade/wp-content/uploads/2013/02/2015-porn-stats-covenant-eyes.pdf>, disponível em: 12/5.

http://g1.globo.com/profissao-reporter/noticia/2016/05/industria-de-artigos-pornograficos-movimenta-r-400-bilhoes-ao-ano.html, disponível em: 12/5.

 

DE ONDE VEM ESTA PAIXÃO PELA EXPERIÊNCIA DO FUTEBOL 

Hugo Oliveira (*)

O coração palpita, 22 atletas entram em um gramado verde buscando um objetivo, um gol. Milhões de homens e mulheres ao redor do mundo ficam de olho nas mais diferentes formas e telas aonde esses jogadores – sejam reais ou virtuais, tenham vontade própria ou sejam controlados por um joystick – dão o que têm para atacar e defender suas metas.

Existem diversos campos onde a experiência do consumo se torna tão importante quanto as próprias atividades prestadas. Um desses campos é o riscado por quatro linhas acima de um gramado verdejante.

O futebol, como esporte de mais de um século e meio de existência, produziu não apenas a prática do jogo como fonte de criação de sentimentos e memórias para quem é seu fã. Acima disso, ele se mostra como uma das atividades que apresenta maior diversificação em seu consumo, se devidamente analisado.

O mais óbvio deles – e talvez um tanto quanto deixado de lado por conta da predominância da performance competitiva na memória dos amantes do esporte – é o que o baseou e fomentou desde o princípio: a própria prática do esporte. De acesso simples por conta da necessidade de poucas ferramentas, a prática lúdica do esporte teve início na primeira metade do século XIX, nas escolas britânicas, de acordo com a já contada e recontada história.

Precisando apenas de um espaço vazio, uma bola e um ou dois gols, a realização rudimentar do esporte pode ser jogada em praticamente qualquer lugar. Talvez a prática mais pura, mas que no espaço de vida moderno é paulatinamente abandonada enquanto a pessoa envelhece. Quando crianças, a possibilidade de jogar futebol é vasta, seja no colégio, ou até nas próprias ruas, parques, condomínios, entre tantas outras localidades. Mas ao passo que a vida toma algum rumo profissional – que não o de jogador de futebol, claro – e a etapa estudantil é deixada para trás, as chances de poder bater um racha são cada vez mais esparsas.

Uma forma de ver a necessidade de consumo por outros meios que não a atividade real é a questão da nostalgia em conjunto da vontade de reviver os momentos felizes de uma vida menos complexa e menos tensa.

Gerson de Souza, empresário, 48 anos, foi um dos consumidores do ludopédio em praticamente todas as formas, desde as peladinhas de rua quando garoto, passando tanto pelo jogo organizado futebol de campo – fosse assistindo ou jogando – e chegando até aos videogames,. Do alto de sua vasta experiência, ele dá seu parecer:

“Apesar de ter saudades de quando eu jogava bola, cada jeito de acompanhar o futebol me dá algo diferente”, diz. “Cada um tem uma maneira, uma forma e todos eles são muito bons para viver”, acrescenta sobre como cada experiência é única em seu meio e realiza sua necessidade de vivenciar o que o esporte proporciona dentro de cada plataforma.

Por outro lado, há os que pouco praticaram o esporte na infância ou adolescência, mas mesmo assim deixaram a gorduchinha balançar as redes de suas vidas de outras maneiras. Leonardo Moreira não era um ávido praticante de educação física na escola, mas fala: “Jogo futebol desde os meus 10 ou 11 anos, sempre no videogame”. Essa foi a porta de entrada para o mundo que envolve as quatro linhas para o estudante de mestrado em ciência da computação, de 27 anos. A partir dos jogos virtuais, ele construiu sua carreira, por um lado, e, por outro, seu maior hobby.

“Pouco tempo depois ficava procurando o que acontecia nos campeonatos europeus, estudava muito, talvez por quase nunca ter jogado. Adoro poder assistir a grandes jogos, a música da Champions [Uefa Champions League – o maior campeonato europeu do esporte] me emociona, cheguei a ver algumas finais no cinema e fico na maior expectativa pela Copa do Mundo”, finaliza Leonardo, demonstrando que mesmo quando não se tem a experiência de dentro das quatro linhas, o futebol gera sensações e memórias para quem o desfruta.

(*) Estudante de Comunicação Organizacional da UTFPR

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