COWORKING: O FUTURO DOS PEQUENOS E GRANDES PROJETOS

Maria Cândida, Marina Scheffer e Thayna Bressan (*)

O teletrabalho é um fenômeno que vem crescendo impiedosamente e as estatísticas são, no mínimo, surpreendentes: projeções de dados do Censo IBGE (2010) comprovaram que na época, no Brasil, já havia mais de 20 milhões de trabalhadores em domicílio.

Há quem diga que este método, por mais cômodo que seja, atrapalhe a produtividade. Uma pesquisa feita pela Steelcase em 2015 demonstrou que 70% dos profissionais que praticam Home Office dizem não conseguir executar a tarefa como esperavam porque a distância do escritório e dos colegas diminui a cooperação nos projetos, além da interrupção com questões domésticas e inviabilização de reuniões com clientes, fornecedores e stakeholders, por exemplo.

Por esse motivo, no ano de 2005, o americano Bred Neuberg teve a ideia de criar uma comunidade cooperativa de trabalho que compartilhasse um espaço, resolvendo, dessa forma, a distância da rede de contatos, mas sem perder a flexibilidade de horários e práticas do Home Office. Assim surgia o Coworking.

Um dos principais argumentos apontados por Neuberg ao desenvolver o método cooperativo foi a economia com o aluguel integral do escritório, que por muitas vezes ficava mais ocioso que ocupado. Economia que poderia, por exemplo, ser revertida em investimento no crescimento do próprio negócio.

Como funciona

A maior parte dos escritórios de coworking trabalha com planos de locação de mesas. Os interessados em utilizar um espaço para trabalhar devem entrar em contato com o escritório e alugar uma mesa por um tempo determinado, para onde levariam seus próprios materiais (computadores e demais recursos de trabalho).

Diferentes escritórios possuem diferentes planos, que variam desde banco de horas por mês até tempo integral. Os serviços oferecidos pelos coworkings também variam de escritório para escritório, mas em geral é possível encontrar, além do espaço de trabalho e internet, uma cozinha ou cafeteria, algumas salas de reuniões e até mesmo salas privativas.

Por se tratar de um modelo de negócios que oferece um serviço de aluguel, a captação de recursos é feita majoritariamente pela locação de mesas, conforme comprovado por pesquisa realizada pelo Ekonomio em parceria com B4i e Coworking Brasil (2015).

Os recursos também são captados através da promoção de eventos e do aluguel de salas de reunião e salas privativas, que podem ou não estar incluídas nos diferentes planos do escritório.

Quem são os coworkers

Segundo pesquisa feita pelo Movebla em conjunto com a Deskmag em 2013, a maior parte dos que optam por trabalhar em escritórios de coworking são empreendedores, com 54,69% das respostas. Em seguida, os freelancers, que somam 17,50% desse público. Esta tendência pode ser facilmente observada na Aldeia Coworking, onde a maior parte dos colaboradores possuem alguma formação relacionada à área de criação, como Design ou Publicidade e Propaganda.

Já em 2015, outra pesquisa realizada pelo Ekonomio em parceria com B4i e o Coworking Brasil revelou que a área de maior atuação no país é a de Negócios Sociais, tendo Design e Educação mais destaque do que Empreendedorismo, contrariando a pesquisa citada anteriormente. Dos 141 escritórios pesquisados, 105 dizem não atuar em nenhuma área específica.

 

Aldeia Coworking, um caso de sucesso em Curitiba

Carinhosamente chamado apenas de “Aldeia” pelos seus colaboradores, este coworking é um dos maiores de Curitiba, e visa unir profissionais autônomos e pequenas empresas para dividir a estrutura de um amplo escritório.

Aldeia Coworking - foto: Thayná Bressan

Aldeia Coworking – foto: Thayná Bressan

Ao chegarmos, fomos recebidas informalmente pela Jade Beuter, aceleradora do coworking. Apesar da informalidade aparentemente característica do lugar, Beuter foi também muito atenciosa, e não demorou para nos mostrar toda a estrutura do escritório.

De paredes coloridas e ar aconchegante, o ambiente parece fazer bem o que promete: integrar os coworkers. As mesas não possuem divisórias e, ao observar os funcionários trabalhando, percebe-se uma relação de parceria, ao invés de uma estrutura individualista e hierarquizada. Fundada em 2010, a Aldeia conta com planos que variam de R$ 60 a R$ 600.

O escritório possui aproximadamente 50 funcionários, e dentro de seu leque de coworkers constam, entre outros, advogados, designers, arquitetos, professores de yoga, tradutores, assessores de imprensa e até algumas start-ups. O espaço também costuma promover cursos para seus colaboradores e para a comunidade, geralmente ministrados pelos próprios coworkers.

 

Vantagens apontadas pelos coworkers da Aldeia

Além da economia no aluguel das mesas citada anteriormente, o ambiente de coworking possui várias outras vantagens. Colaboradores da Aldeia Co., e de diversas outras, alegam que o ambiente compartilhado proporciona a ampliação do networking – rede de contatos –  visto que há grande convivência de profissionais de diversas áreas em um único local de trabalho.

A aglutinação de objetivos se torna bastante recorrente e potencializa as oportunidades de negócios. Segundo Beuter, o caso do projeto “As Mina no Trânsito” uniu a filósofa e profissional da educação, Rafize dos Santos e os designers da Made87, Fernando Severo e Nieli Proença. A ideia foi desenvolvida com o intuito de empoderar as mulheres, fornecendo informações de utilidade pública, como telefones úteis, projetos de incentivo às mulheres, dicas de segurança e direção defensiva.

Em entrevista, Fernando Severo, coworker da Aldeia e desenvolvedor do projeto “As mina no trânsito” em conjunto com Nieli Proença, outra coworker com quem mantém sua agência de design, Made87, explicou quais motivos o levaram a escolher o local para trabalhar e quais motivos o fazem permanecer.

 

AGC – O que te levou a escolher um coworking como seu local de trabalho?

Fernando – A princípio foi o custo. Gastava muito para trabalhar em uma sala comercial tradicional e o coworking oferecia uma estrutura melhor por um terço do valor. Depois de um tempo vimos que oferecia muitos outros benefícios e vantagens.

 

 

AGC – Qual diferença você sente em relação a outros locais de trabalho? (home office, escritório em agência etc.)

Fernando – A energia em si já é bem diferente. Quem está no coworking está aqui com algum objetivo muito claro. Tem um propósito. E o espírito colaborativo é real: qualquer um pode fazer café ou apresentar o espaço para seu cliente. Além de tudo, a gestão do seu tempo é bem mais fácil e natural, deixando menos espaço pra procrastinação. Essa é a maior diferença para o home office, por exemplo.

 

AGC – Você sente que trabalhar com pessoas de diferentes áreas e formações beneficia de alguma forma a execução do seu trabalho?

Fernando – Com certeza! Seguindo o espírito colaborativo, temos também uma abertura para troca de insights sobre algum projeto ou novas ideias de negócio, o que contribui muito no cotidiano. E quanto maior a variedade de profissionais, maior é o networking e a interação.

 

Uma alternativa inovadora, mas com limitações

Entretanto, como nem tudo são flores, há também desvantagens ao se trabalhar em locais assim. Em um levantamento da Rugus, de janeiro deste ano, vários profissionais citam como uma das maiores desvantagens o fato de que os clientes podem criar uma percepção errônea quanto ao ambiente, pois, por apresentar grande flexibilidade, até mesmo em relação à vestimenta, pode parecer mais “desleixado”. Além disso, outros dois pontos de reclamação são a falta de privacidade, que muitas vezes dificulta a concentração, e a pressão em estabelecer networkings, grande desafio aos mais introspectivos.

 

* Estudantes de Comunicação Organizacional da UTFPR

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