UTFPR E O FUTURO DO ENSINO TÉCNICO

Mariele Figueiro e Matheus Pronunciato (*)

A Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) tem mais de cem anos de história. Fundada em 1910, como Centro de Aprendizes Artífices do Paraná, teve uma longa jornada até ser reconhecida como Universidade, o que aconteceu no dia 15 de setembro de 2003, quando foi assinado o projeto de lei que transformava o antigo Centro de Educação Tecnológica em Universidade Tecnológica.

Desde então, muita coisa dentro da rede pública de ensino mudou, e uma delas foi o foco aos cursos de graduação que, com a mudança, passaram a ser prioridade da instituição. Dessa forma, os cursos técnicos integrados com o ensino médio – que durante muito tempo foram sinônimos de ensino de qualidade – foram perdendo o protagonismo que possuíam.

Após ser transformada em UTFPR, foram encerrados os concursos públicos que contratavam professores no regime de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico (EBTT) para o ensino médio. Com o fim dos concursos, se tornou escassa a disponibilidade desses professores nos departamentos. A professora Adriana Cabral, uma das docentes de Língua Portuguesa do ensino técnico que faz parte do Departamento de Linguagem e Comunicação (Dalic) conta que atualmente o departamento oferta apenas poucos professores aos cursos técnicos.

Nos departamentos onde há demanda maior de professores existe necessidade de se desdobrar para cumprir as funções com o técnico. Situação mais complexa quando se trata dos professores contratados em concursos posteriores à transformação da UTFPR, que são concursados como integrantes da carreira do magistério superior. Os editais dos concursos desses professores não incluíam previsão de darem aulas no ensino técnico, então, no papel, eles não se propuseram a exercer a atividade. “A questão não é que os professores não querem dar aula para o técnico, mas sim que eles não foram contratados para fazer exatamente isso”, acrescenta Adriana Cabral.

Os alunos do ensino técnico se opuseram à proposta de fim deste nível de ensino, mesmo com as justificativas da Universidade em relação ao problema. “Os meus alunos reclamam que a grande questão é que a Universidade não os ouve, não os recebe e não oferece justificativas consistentes ou argumentos para defender a posição. Não há um diálogo constante para que os alunos compreendam a realidade da universidade. Se houvesse, as coisas não teriam chegado nesse ponto”, comenta Adriana.

De fato, os estudantes ainda continuam lutando para a manutenção dos cursos técnicos e, no início de junho, os alunos realizaram o protesto icônico na universidade, marchando com gritos e buzinas até a Reitoria para ocupar o prédio. Diversos cartazes com frases contra o fim do técnico foram espalhados pelos blocos e espaços de convivência para propagar o acontecimento. Com o prédio tomado, os alunos controlaram a entrada e saída de pessoas e servidores, dando passagem apenas para pessoas com emergências. A ocupação durou cerca de três dias e foi finalizada sob um compromisso de abertura de novos editais para mais vagas nos cursos de Mecânica e Eletrônica.

ocupa reitoria 1

Foto: Maria Cândida

As opiniões sobre o caso são diferentes, e a equipe do AG Comunique fez o máximo para ouvir todas. Deste modo, foi procurado o Grêmio Estudantil César Lattes (GECEL), que representa os alunos do ensino técnico da UTFPR. A entidade lamentou a possibilidade de os cursos acabarem e criticou a forma como a direção da UTFPR trata do assunto. “A ‘comunicação’ é feita de cima pra baixo, com imposições que vêm de cima. Por exemplo, a diretoria do câmpus afirma que os departamentos do núcleo comum querem fechar o curso técnico, mas a verdade é que eles são obrigados a dar um parecer de acordo com as condições já impostas pela diretoria. Como ‘vocês não vão ter professores nem verba, decidam se vão manter ou não’. Além disso, na UTFPR, existe uma cultura de conversa de corredor, onde boatos com falsas justificativas são espalhados por pessoas com má intenção”, comentam representantes do Grêmio. Os integrantes da entidade estudantil criticam ainda a falta de diálogo, que também atrapalha o posicionamento e dificulta o conhecimento da real situação da instituição.

Em contrapartida, a UTFPR lançou nota sobre o assunto e prestou esclarecimentos. Confira na íntegra a nota, divulgada no dia de 9 junho:

“Referente à ocupação do Bloco J do Câmpus Curitiba, onde funciona a estrutura administrativa do Câmpus e da Reitoria, a Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) informa que respeita as manifestações pacíficas e democráticas dos estudantes e está aberta a esclarecer as dúvidas a respeito do fechamento dos cursos de nível técnico em Curitiba.

Quanto à reivindicação dos alunos, cabe esclarecer que com a transformação do então Cefet-PR em UTFPR, a Instituição passou a ser vinculada à Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação (Sesu) e não mais à Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica (Setec). Dessa forma, a oferta de cursos, os investimentos e a contratação de professores foram direcionados aos cursos de graduação e pós-graduação – motivos determinantes para a decisão dos departamentos acadêmicos do Câmpus Curitiba em encerrarem as atividades dos seus cursos.

Os demais Cefets, por orientação do Ministério da Educação (MEC), foram transformados em Institutos Federais, a quem cabe atuar preferencialmente na oferta dos cursos técnicos. Ressalta-se, por fim, que a Universidade não se opõe à oferta desses cursos, desde que haja uma política a nível Federal para tanto”.

 

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ENSINO TÉCNICO TEM NOME: INSTITUTOS FEDERAIS

Amanda Sousa (*)

Os Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia fazem parte de um novo modelo de instituição educacional proposto pelo Ministério da Educação, por meio do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), com o intuito de promover mais competitividade, movimentar a economia e a equidade social. A ideia do Ministério era ampliar a oferta de cursos técnicos integrando-os ao ensino médio regular e dar apoio aos Centros Federais de Educação Tecnológica (Cefet) para expandir suas vertentes oferecendo cursos de graduação, por exemplo.

instituto federal

Fachada do IFSC, em Palhoça (fonte: site do Instituto)

No Paraná essa substituição aconteceu. Porém, ainda não são claros hoje os limites de atuação das várias instituições de ensino. O Instituto Federal do Paraná (IFPR) chegou com a proposta de dar continuidade ao trabalho da antiga Escola Técnica da Universidade Federal do Paraná e do Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet-PR), oferecendo cursos técnicos integrados ao ensino médio, além de técnicos subsequentes (estudantes que já concluíram o Ensino Médio) e Educação à distância. De acordo com a assessoria do IFPR, o Câmpus Curitiba conta com aproximadamente 20 cursos de ensino médio técnico integrado e os mais procurados são Mecânica, Eletrônica, Processos Fotográficos e Administração. Além disso, o IFPR conta com outros 13 campi no Estado, todos com propostas voltadas ao mercado local. A UFPR extinguiu a sua Escola Técnica e todo atendimento passou para o Instituo. Na UTFPR, no entanto, o processo de fechamento dos cursos técnicos não se completou e, por isso, o impasse continua.

(*) Estudantes de Comunicação Organizacional

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