O POTENCIAL MAL APROVEITADO DO AUDIOVISUAL PARANAENSE

Marina Scheffer e a Maria Assima (*)

No mês de junho de 2016, Curitiba sediou a quinta edição do festival Olhar de Cinema, um evento voltado para a divulgação do cinema independente mundial. Embora o festival tenha nascido na capital do Paraná, ele mostra como a produção audiovisual no estado anda um pouco abandonada, visto que a mostra Mirada Paranaense, voltada para as produções do estado, contou com sete curtas-metragens e apenas um longa, intitulado A Grande Nuvem Cinza, sendo que nenhuma concorreu a prêmios nas mostras competitivas. Pela grande representatividade de produções externas ao estado no festival (cerca de 78 filmes), a impressão é que o foco é somente o cinema mundial e não as realizações locais – mas isso é apenas uma demonstração do quão tímida se tornou a sétima arte por aqui.

Entre as décadas de 1960 e 80, o estado foi cenário de produções importantes, como Gaijin 2, de Tizuka Yamazaki; Lance Maior, de Sylvio Black e até mesmo foi palco para algumas cenas em 007 Contra o Foguete da Morte, de Albert Broccoli. Entretanto, atualmente, as locações paranaenses não têm sido escolhidas para filmagens deste porte. Além disso, em 2014, a pesquisa do IBGE “Perfil dos Estados e dos Municípios Brasileiros” demonstrou que o Paraná foi o 5º estado com menor produção cinematográfica no país. Foram somente quatro produções, sendo três curtas e um longa metragem. O Paraná só ficou a frente do Amapá e Paraíba, que tiveram um total de três produções, e do Piauí, com apenas um filme rodado naquele ano.

O cineasta Fernando Severo concedeu uma entrevista à AG Comunique e, ao ser questionado sobre o motivo da baixa na produção cinematográfica paranaense, afirmou:  “Justamente a falta de incentivo por parte do estado, que tem sido pouco no âmbito cinematográfico. Mas já tivemos muitas produções, um exemplo é Para Minha Amada Morta, de Aly Muritiba, que ganhou prêmios no Brasil e no exterior”. O filme citado é uma produção recente, lançada nos cinemas no dia 31 de março de 2016.

Em complemento à fala de Severo, o fotógrafo e cineasta Pedro Mansa apontou: “Desde a criação do curso de cinema na Faculdade de Artes do Paraná, em 2005, a produção independente aumentou bastante. Sempre tem alguém do Paraná em festivais de cinema no Brasil ou mesmo internacionais, e várias produtoras que abriram são formadas por ex-alunos. Então tem bastante gente legal fazendo cinema, só que muitas vezes sem um real”. Sobre a atuação do estado nesse cenário, Mansa diz que “O estado não está fazendo nem o mínimo, que é 1% do PIB para cultura. Quem está segurando as pontas é a Fundação Cultural, que é da prefeitura. Eles abrem editais, mas a verba deles é menor que a do estado, então fica aquela coisa: melhor isso do que nada. As pessoas até fazem com a verba da prefeitura, mas todo mundo é mal pago e muitas vezes o baixo orçamento reflete na qualidade do material”.

cine passeio

Fonte: Prefeitura Municipal

Em contrapartida ao baixo investimento nas produções, nasce uma esperança no âmbito cinematográfico paranaense – pelo menos no quesito de espaço para exibição – com a construção do Cine Passeio, um complexo cultural que vai abrigar três salas de cinema e outras estruturas dedicadas à formação e difusão do audiovisual. O novo espaço tem sede no antigo quartel da Rua Riachuelo e o valor total da revitalização é de R$5,8 milhões, com previsão de entrega para outubro de 2017. São 2.640 metros quadrados, nos quais serão montadas três salas de projeção, com 111 lugares cada uma.

Uma das propostas do projeto é retomar o conceito de cinema de rua e, por isso, duas das salas serão nomeadas Cine Luz e Cine Ritz, em homenagem a cinemas que funcionaram na Rua XV de Novembro, mantidos pela Fundação Cultura, entre as décadas de 1970 e 90. O Cine Passeio, além de funcionar como um polo cultural para o desenvolvimento do audiovisual, servirá também como centro de capacitação e formação, contando com salas para cursos de edição de imagem e som, e espaço para encontros e exposições.

PRODUÇÕES AUDIOVISUAIS SÃO DESTAQUE NO XVII INTERCOM Sul

A décima sétima edição do congresso regional da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, Intercom Sul – realizado no final de maio deste ano e que teve como sede a PUC/PR – contou com diversos trabalhos com enfoque na análise de produções audiovisuais (séries, novelas, filmes e documentários), nenhum, entretanto, sobre produções paranaenses. Débora Bortolotti, estudante de Comunicação Organizacional da UTFPR, explicou alguns de seus motivos para a escolha da pesquisa voltada para uma produção audiovisual, tendência que vem crescendo no âmbito acadêmico: “Devido ao fato do audiovisual estar presente onde quer que estejamos, entendê-lo é fundamental”, defende a aluna. Ela considera também esta é uma área de muitas inovações: “Este segmento nunca para. Fiz meu artigo, mas logo teria que atualizá-lo, acrescentar informações novas que sei que vão surgir. Essa agilidade, a novidade e o inusitado têm muito a contribuir para a comunidade acadêmica”, acrescenta.

Ao ser questionada sobre produções próprias do estado, a aluna de comunicação afirma que teria interesse em estudar um filme paranaense, mas que não lembra de nenhum: “Acredito que, ou haja pouca produção aqui no Paraná, ou que seja pouco divulgado mesmo”. Débora diz que gostaria de pesquisar sobre produções locais pois   fazem parte da cultura paranaense e nada melhor do que um nativo estudá-la. ” É um enriquecimento cultural tanto para quem a estuda quanto para quem a recebe como informação”, completa.

É notável o potencial do estado para produções audiovisuais. Há interesse do público, há pessoal capacitado – e muito talentoso – e também local para exposição. A grande dificuldade, realmente, é a captação de recursos. O incentivo do governo tem se limitado ao investimento em obras físicas, que apesar de agraciarem a cidade, de nada servem se não houver conteúdo para se expor. A sétima arte sempre fez parte da história local, diversos atores curitibanos foram lançados pelo Brasil e pelo mundo, o que falta é conseguir fazer do Paraná um palco onde eles não queiram apenas brilhar em busca de novas oportunidades, mas fazer daqui a oportunidade para que possam permanecer e enriquecer a cultura local, contribuindo para que seja efetivamente valorizada.

(*) Estudantes de Comunicação Organizacional da UTFPR

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