NOVAS FORMAS DE EXPERIÊNCIA EM VIAGENS

Bárbara Brayner, Igor Saiene e Luciano De Marchi Mello (*)

Escolher um destino, comprar passagens, reservar hotel, arrumar as malas e partir com a mente cheia de desejos e expectativas. Pra quem gosta de viajar, essas etapas sempre se repetem de uma forma natural, certo? Não! É o que afirmam muitos viajantes atualmente, principalmente os mais jovens. A forma de viajar mudou bastante nos últimos anos e a busca por novas e instigantes experiências é algo incorporado a esta prática.

A vontade de explorar novos lugares e conhecer pessoas estabelecendo uma conexão que transcende as viagens tradicionais é a principal característica dos membros da comunidade do Couchsurfing que, traduzido ao pé da letra, quer dizer: Surfe no Sofá. Criado em 2004 por quatro amigos, ela já contabiliza 12 milhões de membros presentes em 200 mil cidades ao redor do mundo.

O Couchsurfing possui páginas de perfis de pessoas, assim como o Facebook, porém nele os usuários oferecem suas casas para hospedar estranhos ou, segundo a filosofia dos membros, não são exatamente estranhos e sim amigos que você não conheceu ainda.  É possível solicitar um cantinho pra se hospedar em praticamente todos os países do mundo. Ou marcar um wine tour em Mendoza, na Argentina. Passear de bike na linda Amsterdam, tomar mojitos e ouvir salsa nas bodeguitas de Havana, tudo isto na companhia de um nativo. Para aqueles viajantes adeptos do Couchsurfing, viajar não se resume apenas a conhecer um destino novo e explorar suas rotas turísticas. Viajar é muito mais que isso!

Segundo Juliana Almeida, alagoana de 28 anos e participante do Couchsurfing há 9 anos, a maior vantagem do site é a experiência única que ele agrega à viagem. “Quando você se hospeda com o CS, cada lugar terá o seu charme, aquele toque único daquela pessoa que está abrindo a porta de sua casa pra te acolher. Se hospedar com o CS significa fazer daquela viagem uma troca cultural, conhecer o destino com uma nova perspectiva e se permitir fazer amizades muitas vezes pra vida toda.”

O site abre muitas portas, literalmente. Nos perfis dos usuários é possível ler os depoimentos e experiências que outros membros tiveram com eles. Além de características pessoais e preferências dos mesmos, como quantidade de pessoas que aceitam, existência de animais de estimação, conveniências próximas da residência, entre outros. Muitos fazem questão de incluir também a foto do ‘cantinho’ que disponibilizam para os viajantes, tudo com muito capricho e cuidado.

Com a criação do site, muitos passaram a utilizá-lo como ferramenta para facilitar as suas viagens, e acabaram embarcando em um mundo que engloba muito mais que isso. Afinal, mesmo com a comodidade oferecida pelos hotéis, a filosofia do CS transcende as formas de experiências e interações que a hospedagem em um hotel nunca será capaz de proporcionar.

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Encontro com amigos CS em  São Paulo. Foto: arquivo pessoal Bárbara Brayner

Para o recifense Betuca Buril, que utiliza o Couchsurfing desde 2007, vale a pena abrir mão do hotel se o viajante procura algo além de uma boa cama: “Quando a pessoa se hospeda em um hotel, além do conforto ela vai ficar mais isolada do lugar onde está. Quando o viajante tem a oportunidade de ficar na casa de um morador, vai ter a chance de participar, nem que seja um pouco, da vida das pessoas daquela cidade. Pode ter a oportunidade de ver e participar do dia a dia daquela cidade/país… ver como são suas casas, possivelmente conhecer alguns de seus amigos. Enquanto isso, hotéis são sempre extremamente parecidos uns com os outros, não importa o lugar do mundo no qual você esteja”.

Porém, muitos questionam a utilização do sistema, ou temem aderir à plataforma quando o assunto é segurança. Afinal, corre-se certo risco ao aceitar hospedar na sua casa, ou ser hospedado, por uma pessoa estranha. Pensando nisso, o site inseriu algumas ferramentas que ajudam os usuários na escolha de seus hosts ou guests. É possível ler nos perfis, as experiências de cada pessoa, sua lista de amigos e as referências deixadas por aqueles que de alguma forma já a conheceram, seja num encontro, ou por meio de uma viagem/hospedagem. Além disto, o site pode verificar também, se o endereço da pessoa realmente é verdadeiro, enviando uma correspondência personalizada. Assim, ela ganha uma marcação no perfil, com um ícone específico dessa verificação.

E o Couchsurfing não é apenas uma plataforma que oferece um meio de hospedagem alternativo: os membros também têm a oportunidade de participar de vários encontros promovidos pelos mais diversos grupos e interagir de outras formas caso não tenham disponibilidade para hospedar alguém. O forte é realmente a interação e a experiência que podem ser compartilhadas com inúmeras culturas e nacionalidades.

Em Curitiba, por exemplo, acontecem encontros semanais como o happy hour que elege todo mês um bar diferente da capital como ponto de encontro, a Feirinha Noturna na Praça da Ucrânia e até o language meeting pra quem deseja praticar um pouco de idiomas. Além destes, todo ano um grupo de couchsurfers da cidade se reúne para elaborar uma extensa programação chamada de Invasion ou Invasão.

A de Curitiba já está na sexta edição este ano e promete um grande agito com as presenças confirmadas por couchsurfers de vários lugares do Brasil e do mundo. As Invasões são uma tradição do CS e é comum encontrar pessoas que viajam de longe só para fazerem parte dela. Os participantes locais costumam montar uma planilha de hospedagem para receber todos os visitantes e as confraternizações duraram vários dias. Suas programações normalmente incluem churrascos, passeios a pontos turísticos, happy hours, trilhas – dependem muito dos locais onde acontecem.

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Invasão Curitiba 2015 – Foto:  Eduardo Biavaschi

Do ponto de vista financeiro, o Couchsurfing nem sempre é sinônimo de economia durante a viagem. É o que afirma Lia Germani, moradora de Curitiba que utiliza o site desde 2012, “… muitas vezes nós gastamos mais ficando na casa dos outros couchsurfers do que em algum hostel por exemplo. Porque sempre compramos presentes para os nossos hosts, ou convidamos para comer fora. Sempre estamos na rua conhecendo a cidade que estamos visitando e acabamos comendo mais fora do que na casa dele”. Ela coleciona muitas experiências vividas com a comunidade e que são compartilhadas também com sua família, “Eu já tive vários guests em casa, e como moro com meus pais, eles participam comigo dessa experiência também, o que eu curto muito. Nunca tive um momento ruim com os meus visitantes. Muito pelo contrário”.

A vontade de ir além do tradicional e muitas vezes do impessoal, é uma das características que unem esses viajantes. Nem sempre o conforto do quarto de hotel vai trazer a satisfação esperada. E a verdade é que muitos optam pelo inesperado. Pela conquista além do comum, pode-se enfrentar o desconhecido e voltar pra casa uma outra pessoa. Isso quando se consegue voltar para um lugar que pode chamar de casa.

Acesse aqui um vídeo com depoimentos de usuários do Couchsurfing, produzido especialmente para a AGComunique.

Para mais informações sobre o Couchsurfing, acesse a página oficial.

 

AIRBNB OFERECE ALUGUEL SEM IMOBILIÁRIA EM TODO MUNDO

Outra boa opção para quem deseja viajar fugindo da convencionalidade dos hotéis é o Airbnb. A plataforma conecta usuários proprietários de apartamentos, casas ou quartos dispostos a alugá-los à viajantes, por um custo relativamente baixo comparado ao praticado pelos hotéis tradicionais. Além do custo, a opção chama atenção pela possibilidade de se integrar à comunidade local e conhecer roteiros e lugares que não estão no plano turístico, assim como acontece no Couchsurfing.

Vanderval de Melo Junior, morador de Januária (MG), utilizou a plataforma pela primeira vez no início do ano, em sua viagem para Curitiba. Na entrevista abaixo, ele fala sobre sua experiência:

Quais as vantagens da escolha de uma forma não-convencional de hospedagem?

Uma das grandes vantagens é o fato de ficar em uma residência, bem mais a vontade que em um quarto de hotel e poder fazer compras em supermercado, barateando ainda mais os custos com alimentação.

Como foi o planejamento e a troca de mensagens com o proprietário do imóvel antes da viagem?

Troquei várias mensagens com a proprietária e tirei várias dúvidas com relação à localização do imóvel, o que tinha no entorno… Ou seja, foi bem prático, o que me ajudou bastante a acreditar que tudo daria certo.

Então você sentiu segurança no suporte do site?

Senti segurança no site pelo fato de conhecer várias pessoas que já viajaram por meio dele, mas confesso que senti mais segurança depois que passei a me contatar diretamente com a proprietária.

Qual o seu feedback geral em relação à experiência?

O melhor possível! E já recomendei para vários amigos, familiares e conhecidos e certamente voltarei a utilizá-lo.

 

JÁ SONHOU EM MORAR EM UMA DESSAS CASAS DE FAMOSOS?

AGORA VOCÊ PODE!

No Airbnb também é possível encontrar casas cinematográficas que pertenceram a pessoas famosas. Que tal se hospedar na casa com vista para o mar de Malibu do ator Denzel Washington? Ou na casa que pertenceu ao escritor Charles Dickens em Londres? Diversas outras casas de celebridades estão disponíveis, como a casa construída por Charles Chaplin na Califórnia; a de Jimi Hendrix, em Makawoa, no Havaí; o quarto em que Aldoux Huxley teria escrito “Despertar de Um Mundo Novo”, em 1930, no Novo México (EUA) e a casa em Nova Iorque da atriz Julie Andrews, protagonista dos clássicos “Mary Poppins” e “A Noviça Rebelde”.

O número de usuários do Airbnb não para de crescer. Suas possibilidades e alternativas talvez expliquem o fato da plataforma ter se tornado, no início desse ano, a terceira maior startup do mundo.

 

OS MEIOS E PLATAFORMAS PARA HOSPEDAGEM

Aqueles que buscam entrar no mundo das viagens mais alternativas, e que desejam essa experiência, devem conhecer as principais plataformas disponíveis. As mais conhecidas são as já citadas acima,  Airbnb e CouchSurfing. O Couchsurfing – o primeiro a surgir com um site, em 2003, muito antes mesmo das redes sociais se propagarem – é o modelo mais distinto, por se tratar de um serviço não pago, onde as pessoas se oferecem para hospedar os que se interessarem. O Airbnb funciona de forma paga: as pessoas oferecem espaços para serem alugados aos viajantes.

Outra plataforma que funciona nos mesmos princípios que o Airbnb é o Wimdu, com o aluguel de espaços, e a avaliação de hóspedes anteriores sobre o local. O Wimdu surgiu em 2011 com um forte investimento, visto o sucesso da Airbnb, e por isso foi a primeira empresa a abrir um escritório no Brasil, também com uma campanha para divulgação do serviço, tendo em vista que o país seria sede de grandes eventos como a Copa do mundo de 2014, e as olimpíadas nesse ano de 2016.

Por fim, existem também as redes sociais, principalmente o Facebook e seus grupos, onde pessoas se juntam para falar sobre suas experiências, e partilhar informações, oferecendo também estadias e oportunidades. Estes contatos diretos podem transmitir maior confiabilidade de um jeito mais informal.

 

A ORIGEM DA PRÁTICA DAS VIAGENS ALTERNATIVAS

A prática de hospedagem alternativa hoje se faz muito comum e melhor devido às ferramentas como o Couchsurfing e Airbnb, mas esse costume teve início muitos anos atrás. No fim da década de 1950, surgiu o movimento beat, que consistia em um grupo de artistas norte-americanos, principalmente escritores, que não se encaixavam nos modelos de sociedade da época e buscavam uma vida mais livre, viajando e vivendo suas aventuras. Essa geração inspirou movimentos seguintes como o movimento hippie, e teve obras muito conhecidas como On The Road, de Jack Kerouac (On The Road – Pé na estrada no Brasil), um livro que fala sobre sair pelo mundo vivendo novas experiências e descobertas. O livro foi fonte de inspiração para as próximas gerações adotarem esse estilo de vida, e querer seguir esses passos.
Com a popularização da prática e se baseando nas experiências de movimentos anteriores, começaram a surgir os chamados ‘mochileiros’, grupos de pessoas que se juntavam para viajar, em busca de experiências diferentes das oferecidas em pacotes turísticos, querendo algo que explorasse mais as culturas dos locais visitados. Esses grupos se popularizaram pelo mundo inteiro, e não consistiam necessariamente de pessoas que abandonavam seu estilo de vida para viver como nômades, mas que separavam parte de seu tempo e de sua vida para viver essas experiências.

(*) Estudantes de Comunicação Organizacional da UTFPR

 

 

 

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