TERAPIA ALTERNATIVA: O CONSUMO DE ERVAS MEDICINAIS

Cristiano Sousa, Jessica Maranho, Kamila Silva, Simone Adams e Tarcila Garcia (*)

 

Nos últimos anos, em nível global, a indústria farmacêutica adquiriu relevância incalculável na sociedade, especialmente devido à força do capitalismo. Porém, ao longo da história da humanidade, a preocupação com a cura de doenças sempre foi uma constante. Pode-se dizer que, tão antigo quanto o aparecimento do homem, talvez seja o uso de plantas e de ervas como medicamento. Atualmente, essa prática faz parte de um amplo movimento denominado terapia complementar ou terapia alternativa.

Diferentemente dos fitoterápicos, as plantas medicinais são aquelas comprovadamente capazes de curar doenças ou de aliviar sintomas, e que somam longa tradição de uso como medicamento, em meio à população. Os fitoterápicos são remédios industrializados, que fazem uso de plantas medicinais como matéria-prima. Esse processo de beneficiamento evita contaminações por agrotóxicos e substâncias estranhas, garantindo qualidade e eficácia na aplicação da droga.

vendadeervasComercialização de ervas e plantas medicinais em Curitiba

Simone Pereira, enfermeira do Hospital da Cruz Vermelha em Curitiba, diz que os pajés foram os primeiros habitantes brasileiros a aplicar medicamentos à base de ervas e que a Farmácia somente se transformou em estudo científico a partir do momento em que a indústria vislumbrou um nicho de negócio. “Na região Norte ainda existem as benzedeiras”, salienta a profissional de saúde, ressaltando que, em alguns casos, “se você olhar o nome científico da erva é o mesmo que consta nas bulas dos remédios de farmácia, como, por exemplo, a penicilina ou a novalgina, cuja planta está presente na dipirona”.

De acordo com a legislação brasileira vigente (Lei nº 5.991/73), as plantas medicinais podem ser comercializadas apenas em farmácias ou herbanários. Nesses locais, devem estar corretamente embaladas e identificadas com a classificação botânica (nome científico) no rótulo. A embalagem não pode apresentar indicações para uso terapêutico.

Sob outra perspectiva, os medicamentos fitoterápicos são produzidos em laboratórios devidamente autorizados e registrados na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), antes de comercializados. Alguns itens, como raízes, pós de plantas, chás, florais, medicamentos manipulados e própolis não são considerados fitoterápicos.

secando-para-consumo2Secando ervas para o consumo

A Fitoterapia é uma ciência focada no combate das doenças, a partir do uso de ervas medicinais. Porém, apesar da crença de que nenhuma planta faz mal, antes de aderir a tratamentos dessa natureza, é importante informar-se corretamente, pois algumas podem, sim, causar sérios efeitos colaterais, a exemplo da Dieffenbachia picta, popularmente chamada Comigo-ninguém-pode. Considerada cientificamente tóxica, ela pode ocasionar dor e queimação na boca, língua e lábios; edema e salivação; vômitos, diarreia e irritação da pele. No olho, pode causar lacrimejamento, fotofobia (irritação com a luz) e até conjuntivite.

A médica Nádia Ferreira sofria de uma asma grave na infância e depois de muitos tratamentos convencionais, aos quatro anos de idade, foi tratada com xarope do coração da bananeira. “Minha mãe comenta que tomei aquela substância por dois meses, com intervalos de 15 dias e que foi preciso repetir mais uma vez, no ano seguinte. Desde então, não senti mais nada”, comemora a profissional de saúde.

Apesar de as substâncias naturais serem mais seguras que medicamentos sintéticos, é provável que parte do entusiasmo com esse tipo de terapia alternativa, seja induzida pelo alto custo das drogas tradicionais, que, aliás, nem sempre proporcionam os resultados esperados. “A diferença entre as ervas medicinais e os remédios é que alguns são, simplesmente, a erva modificada ou melhorada em laboratório, produzida em forma de cápsula”, afirma José Prates, enfermeiro do Hospital Infantil Waldemar Monastier, no município de Campo Largo, na região metropolitana da capital paranaense.

Uma coisa é certa: as ervas medicinais são bastante populares no Brasil, mas em países desenvolvidos, como os Estados Unidos, também há grande procura por plantas com propriedades curativas. Outro fator que influencia essa demanda é a valorização de hábitos saudáveis de vida, como o consumo de frutas e verduras, a prática de exercícios físicos e a redução do uso de remédios para dores corriqueiras.

Percebe-se que o crescimento no mercado de fitoterápicos também é sentido pela quantidade de profissionais envolvidos com esse método, desde a execução de palestras e cursos, até a abertura de lojas especializadas na comercialização de plantas medicinais.

 

 

RITUAIS COM BANHO DE ERVAS

Quem nunca ouviu a frase “vamos tomar um banho de arruda e guiné, para afastar qualquer mau-olhado“? Na Umbanda, um dos rituais mais comuns é o banho, tal qual a lavagem de chão. Os dois são técnicas de limpeza e também de energização, que consistem, normalmente, em utilizar água, ervas, raízes, cascas e sementes. Também pode-se acrescentar algumas gotas de perfume ou óleos essenciais na mistura já pronta.

O erveiro e jardineiro Ronan Canindé, filho do pai de santo que dirige o Terreiro de Umbanda Caboclo Arranca Toco, localizado no município de Colombo, na região metropolitana de Curitiba, fala sobre trabalhar com plantas de forma ritualística e não comercial. “Quando o caboclo sugere banho de hortelã, colho ali no quintal e entrego para a pessoa preparar o chá e se banhar, sem cobrar nada”, enfatiza ele, destacando que é mais um “trabalho de educação e de conscientização, que, propriamente, comércio”.

ronan-caninde2Ronan Canindé e seu ervanário

Ele diz sobreviver de doações e do trabalho de jardinagem. No entanto, comercializa alguns produtos artesanais, com plantas e ervas cultivadas no herbário, que fica no quintal de casa, na propriedade do Terreiro. O sabonete Sete Ervas, para banhos de descarrego, é o carro-chefe.

Ronan reclama que as pessoas procuram esses tratamentos apenas em busca de cura e não encaram como um modo de vida, capaz de prevenir doenças. “Acreditam que as plantas medicinais são única e exclusivamente para curar, mas elas funcionam melhor como prevenção. Até cura, mas o uso contínuo e controlado fortalece os sistemas”, ratifica.

hortelaCanteiro de hortelã

Com os chás, a história se repete e “quando a pessoa já não aguenta mais usar o remédio da farmácia ou percebe que o remédio da farmácia está fazendo mal, vem em busca da terapia alternativa”. Para ele, é difícil alguém manter essa prática como um modo de vida mais natural, pois o chá não resolve igual ao antibiótico. “Considerando o tempo necessário para se produzir, assim como o custo da matéria-prima, a produção é feita em menor quantidade, para não comprometer a qualidade”, finaliza.

 

 

PESQUISA CIENTÍFICA NA UFPR

 

A Universidade Federal do Paraná (UFPR) mantém o Núcleo Paranaense de Pesquisa Científica e Educacional de Plantas Medicinais (Nupplamed), vinculado ao Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular, no Setor de Ciências Biológicas da Instituição, em Curitiba. Uma das pesquisas científicas desenvolvidas pelo Nupplamed, visando identificar plantas medicinais com possíveis aplicações biológicas ou atividades biológicas, comprovou que a goma arábica e a goma do cajueiro, resinas naturais muito presentes no cotidiano das pessoas, podem afetar a saúde humana.

pesquisadorasnupplamed

Pesquisadoras do Nupplamed

Segundo informação da aluna de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Ciências – Bioquímica da UFPR, Raquely Lenzi, responsável pelo desenvolvimento dos experimentos da primeira etapa dessa pesquisa, na época ainda como aluna de mestrado, o estudo apontou que, em alguns casos, a utilização dessas substâncias naturais podem iniciar um processo de inflamação. Ela explica que o estudo é dividido em três fases: “in vitro, in vivo e experimentos clínicos”.

Na primeira etapa, foram usados soro humano de doares e hemácias de carneiro e de coelho, para simular o Sistema Complemento, que faz parte dos princípios de defesa do organismo humano.

Recentemente, o estudo obteve reconhecimento internacional, sendo escolhido como artigo do mês pela Scandinavian Society for Immunology, importante organização da Europa, que reúne sociedades de imunologia da região dos Países Nórdicos (Dinamarca, Finlândia, Islândia, Noruega e Suécia).

A goma arábica é empregada nas indústrias farmacêutica e alimentícia e pode ser substituída pela goma do cajueiro. Ambas têm potencial em inúmeras utilidades comerciais, como fabricação de cola para papel, estabilização da espuma de cerveja, conservação de sabor nos alimentos industrializados e retardo no descongelamento. Na indústria farmacêutica, especificamente, é usada como espessantes de xaropes, na fabricação de cápsulas de comprimido, e na composição de injeções.

Para conhecer um pouco mais dessa pesquisa, assista ao programa Scientia, da UTFPR TV, exibido em 12 de setembro deste ano.

(*) Estudantes de Comunicação Organizacional da UTFPR – Câmpus Curitiba

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s