A UTFPR E AS ORGANIZAÇÕES DA SOCIEDADE CIVIL

Julia Folmann, Tiago Correia, Daisy Carolina e Maíra Kaline (*)

“Eu tinha interesse em mudanças no ambiente acadêmico, mas não sabia como. Me envolvi com o coletivo feminista e a partir disso me convidaram para formar uma chapa para o Diretório Central dos Estudantes (DCE).” Nicole Kobayashi Botine, aluna do curso de Sistemas de Informação, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), assim relata seu envolvimento no Movimento Estudantil na Universidade.

O Movimento Estudantil está entre os mais tradicionais movimentos sociais no Brasil, devido a sua importância histórica no processo de redemocratização e a constante luta por uma educação pública e de qualidade. Ou seja, mais que uma representação local, o Movimento Estudantil tem expressão em uma série de pautas presentes na sociedade.

Isto fica evidente nas manifestações estudantis que têm acontecido nos últimos meses, nas quais os alunos secundaristas e universitários têm ocupado as escolas em protesto à Medida Provisória 746 que reforma o Ensino Médio e a Proposta de Emenda à Constituição 55, que tramita no Senado Federal, com a finalidade de congelar os gastos públicos por 20 anos.

Walfrit Schreiner, aluno do curso de Comunicação Organizacional da UTFPR, diz que seu interesse pelo Movimento Estudantil nasceu a partir da experiência de uma disciplina de criação de eventos. “Escolhemos a comunidade LGBT para organizarmos um evento, por serem os LGBT/apoiadores um grupo que ainda sofre bastante na universidade. Com a realização do Baphonica (nome do evento) conseguimos dar visibilidade e representar esses estudantes, assim, não tardou pra que eu entrasse em contato com outros membros de movimentos estudantis e começasse a me envolver mais com a vivência na universidade.”

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Walfrit e Nicole (Fotos retiradas do Facebook)

Esses relatos fazem perceber que o Movimento Estudantil congrega uma série de demandas e é um espaço para discussão e representação não só dos alunos frente à universidade, mas também um espaço para diálogo entre os próprios acadêmicos. Nicole, que ingressou na universidade neste ano, vê o Movimento Estudantil “como aquele grupo que sabe as preocupações reais dos alunos, até porque é formado por eles, e luta por tópicos que realmente impactam na jornada acadêmica.” A aluna vivencia intensamente a vida universitária, além das atividades acadêmicas e do Movimento Estudantil, é membro do Coral da UTFPR.

roda-de-conversaRoda de conversa organizada pelo DCE no dia 31/10. Foto: Neidivaldo Junior

As eleições ao DCE da UTFPR aconteceram em setembro de 2016, com a vitória da chapa Pavão, que concorreu como chapa única e foi eleita com 212 votos (sedes Centro e Ecoville). Nicole comenta a importância do movimento estudantil na universidade e suas conquistas: “Dentro do DCE pude perceber que o diálogo institucional existe, mas quase sempre para só no diálogo, tanto que alunos ocuparam espaços da UTFPR duas vezes em um passado recente (Ocupação dos Cursos Técnicos e ocupação no Curso de Arquitetura) para conseguirem soluções da universidade”.

Walfrit ressalta ainda que o Movimento Estudantil é espaço para a“ formação política e social, onde você luta pelos seus direitos – e aprende sobre eles, conhece mais sobre seu papel como universitário e descobre realidades que não seriam possíveis de serem vistas se você se mantivesse apenas na bolha da sala de aula.”

Quanto às pautas defendidas pela atual gestão do DCE, Walfrit destacou: “Alguns temas como auxílio básico, RU, igualdade de gênero, combate aos assédios, preconceitos e racismo são vistos como pautas ‘de esquerda’ e rechaçadas pela maioria dos acadêmicos que geralmente possui pensamentos bastante retrógrados e conservadores. A mesma dificuldade encontramos com os nossos superiores, ao falar com a instituição.” Ambos os integrantes do DCE relatam não só a dificuldade de diálogo, como também a burocracia que engessa todos os processos da universidade.

 

COMO SE ESTRUTURAM AS ORGANIZAÇÕES DA SOCIEDADE CIVIL NO BRASIL

As Organizações da Sociedade Civil (OSC’s) se referem à ação coletiva de grupos organizados que objetivam alcançar mudanças sociais por meio do embate político, conforme seus valores e ideologias dentro de uma determinada sociedade. O que vem sendo reafirmado no Brasil como um fundamento dos mecanismos institucionais que visam garantir a efetiva proteção social como está em vigência nos direitos sociais. No Brasil as manifestações de caráter conservador e discriminatório (racial, religioso, gênero, etc.) têm crescido e, por outro lado, isso tem mobilizado reações de outros setores da sociedade, evidenciando diversos pontos de vista.

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Dentro da participação em defesa de causas sociais está a Associação Brasileira das Organizações Não-Governamentais (Abong), uma associação formada por um conjunto de OSC’s que, no cumprimento dos seus objetivos, promove a articulação com movimentos sociais no Brasil e internacionalmente. A Abong atua pelo fortalecimento dos sujeitos e das lutas em prol dos direitos humanos, da democracia e da justiça em todo o planeta; além disso, possibilita interlocução com os poderes constituídos, nacional e internacionalmente, sempre na defesa da democracia, da justiça social e de um outro modelo de desenvolvimento.

A entidade fortalece alianças com movimentos sociais e redes temáticas, em especial as que trabalham com questões como gênero, raça, diversidade sexual e outras lutas de menor visibilidade em nossa sociedade, na perspectiva de efetivação dos direitos humanos, econômicos, sociais, culturais e ambientais. Com esse objetivo, integra o Fórum de Entidades Nacionais de Direitos Humanos (FENDH), a Jornada pela Legalização do Aborto e o Conselho Nacional de Segurança Pública. Além disso, engajou-se na Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma Política, por meio da qual quer promover a participação política das mulheres, jovens, indígenas, LGBTs e outros grupos discriminados e sub-representados.

 

PROFESSORA  FALA SOBRE AS ORGANIZAÇÕES DA SOCIEDADE CIVIL NA UTFPR

A UTFPR conta com a presença de uma variedade de Movimentos Sociais, ONG’s e Coletivos  que tratam de uma série de pautas, o que favorece o engajamento social da Instituição, de seus servidores e estudantes nas causas sociais.

A fim de conhecer a posição da UTFPR Câmpus Curitiba em relação às OSC’s como um todo, esta reportagem entrevistou a Professora Ivone de Castro, responsável pelo Departamento de Extensão (Depex).

AGComunique: Qual a posição da UTFPR Câmpus Curitiba em relação aos Movimentos Sociais?

Ivone: É preciso ter em conta que por sua própria estrutura a Universidade vê a extensão em perspectiva tecnológica, ou seja, em criar vínculos entre a instituição e empresas. O que não impede que haja entre suas ações iniciativas sociais, como por exemplo o projeto de extensão Incubadora de Economia Social (Tecsol) que promove atividades de apoio à formação e consolidação de empreendimentos de Economia Solidária, nas áreas de gestão cooperativa, processos participativos, desenvolvimento de tecnologias sociais, e outras áreas específicas demandadas pelos grupos de Economia Solidária.

AgComunique: Como acontece o diálogo institucional entre a Universidade e os Movimentos Sociais e qual o apoio que a Universidade pode dar a esses movimentos?

Ivone: A parceria entre a instituição e os movimentos não acontece no Depex, visto que este é um departamento protocolar. O diálogo acontece entre professores e alunos e os Movimentos Sociais, que então são submetidos nos respectivos departamentos e, uma vez aprovados, recebem a chancela do Depex.

A UTFPR apoia os movimentos oferecendo sua estrutura física e pessoal, ou seja, uma vez que os vínculos sejam estabelecidos os movimentos podem usar o espaço da universidade e a expertise dos professores e alunos. Nesse processo, o Depex oferece materiais para divulgação de eventos, certificação e articula outras parcerias entre os Movimentos Sociais e outras organizações.

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Professora Ivone de Castro – Depex  – Foto: Maíra Kaline

 

CONFIRA OUTRAS ORGANIZAÇÕES  CIVIS PRESENTES NA UTFPR

Além do DCE, outras Organizações da Sociedade Civil se fazem presentes na UTFPR. No âmbito acadêmico, existe o Grêmio Estudantil César Lattes (GECEL) representado os alunos nos cursos técnicos de nível médio (Técnico em Eletrônica e Técnico em Mecânica), que tem como uma das principais pautas a luta pela permanência desses cursos na Universidade.

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Como entidades de representação estudantil há ainda os Centros Acadêmicos que são as representações discentes junto a cada curso, e o DCE que representa os alunos como um todo junto à estrutura universitária.

Representando as minorias negra e LGBT da UTFPR, surgiram os Coletivos Enedina e Plurais. O primeiro se inspira na história de Enedina Alves Marques, a primeira engenheira negra do país, formada pela UFPR em 1945. Andressa Muniz, representante do Coletivo presente na UTFPR desde 2015, ressalta a importância de um grupo que valorize a “ideia de aquilombamento, que é a união do povo preto para o apoio mútuo”. Entre as atividades desenvolvidas estão a presença do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Neabi), que estimula professores e alunos que lutam para combater o racismo e levar o debate étnico racial para dentro da universidade.

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O Coletivo Plurais surgiu a partir do Baphônica, evento contra LGBTfobia na UTFPR. Walfrit Schreiner afirma que “hoje temos um grupo de 30 pessoas (…) com alunos de alguns cursos representados”, que tem o objetivo de “criar um ambiente mais saudável e seguro para a comunidade LGBT da UTFPR. Hoje sabemos como é difícil estar dentro desta Universidade tão opressora e machista, então o pouquinho que sirva de espaço acolhedor já faz grande diferença para a experiência acadêmica dos estudantes”.

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Dentre os movimentos sociais, desde 2008, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) realiza atividades na UTFPR. A professora do Departamento de Linguagem e Comunicação (DALIC) Maurini Souza,  conta que existe  “um grupo de estudos em que pesquisamos os diferentes aspectos relacionados à comunicação e questão agrária brasileira”. Relatando o desenvolvimento do grupo, refere-se ao envolvimento com o plebiscito para o limite de propriedade da terra, quando “em 2010, trazemos o plebiscito para a UTFPR, com o apoio do então diretor do campus, professor Schiefler. Ocupamos o espaço do pátio do bloco E e conseguimos articular discussões sobre o assunto no nosso câmpus”.

A presença deste movimento social na universidade foi um incentivo não só para pesquisa, mas também para a produção. Maurini, juntamente com os demais envolvidos, produziu um material para a construção do livro Resistir, ocupar: comunicação dialética e questão agrária brasileira. Entretanto, a professora lamenta: “não conseguimos publicar o volume até agora, por falta de verbas”.

O documentário Vozes do Contestado, que relata a experiência dos trabalhadores sem terra na Lapa/PR, também foi produzido na UTFPR pelos alunos de Tecnologia em Comunicação Institucional e apresentado na Cinemateca de Curitiba. Atualmente o grupo trabalha na confecção de um livro de fotografias relacionadas ao MST no Paraná.

levante-popular

Outro movimento social de atuação nacional presenta na UTFPR é o Levante Popular da Juventude, organização de jovens militantes voltada para a luta de massas em busca da transformação da sociedade. O Levante é representado na UTFPR pelo acadêmico Cesar Cruz que afirma: “É de suma importância a atuação de movimentos e coletivos que elaboram discussões mais humanizadas a tal comunidade, voltando à pesquisa e estudos de assuntos pouco abordados em sala”.

(*) Estudantes de Comunicação Organizacional da UTFPR

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