VISIBILIDADE LGBT

Cristiano Sousa, Jéssica Maranho, Kamila Silva, Simone Adams e Tarcila Garcia (*)

No Facebook, já é possível escolher entre quase 60 diferentes opções de gênero, inclusive “bigênero” e “questionando”. Alguns games on-line permitem jogadores criarem relacionamentos entre avatares do mesmo sexo e outros abandonaram de vez as restrições de gênero nas vestimentas e cortes de cabelo dos personagens. O Oxford, tradicional e mais completo dicionário em inglês do mundo, adicionou  Sx. como substituto neutro para os pronomes de tratamento Sr. e Sra. E o rapper Young Thug desafia os estereótipos de gênero e movimenta os bastidores do hip-hop ao usar vestidos.

Importante transformação cultural dos últimos tempos, a sociedade passou a tolerar mais o vasto leque de identidades de gênero e sexualidade. Visibilidade LGBT é, atualmente, uma expressão linguística muito usada na desmistificação das diferenças, a ponto de pessoas que se consideram heterossexuais – mas que rejeitam a heteronormatividade – se unirem em apoio às causas de gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros.

A História e a Antropologia mostram que as universidades desempenham papel fundamental nesse processo de transformação cultural e desmistificação das diferenças. Além de ser um instrumento na construção de valores e atitudes, a comunidade universitária possibilita o desenvolvimento do pensamento crítico, a partir da compreensão sobre as diferenças corporais e sexuais, que outrora se criava na sociedade, permitindo um olhar mais reflexivo sobre as identidades sexual e de gênero.

Neste ano, na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) – Câmpus Curitiba, um grupo de estudantes de vários cursos formou o coletivo Plurais UTFPR, com o objetivo de apoiar a causa LGBT. De acordo com a universitária Allana Barzick, membro do Grupo, no próximo semestre, a ideia é promover cine debates, reuniões sobre temas específicos, ligados às causas e ao movimento, e intervenções na Universidade. “É um coletivo que conta com a participação de todos, pois os simpatizantes também são uma força essencial para qualquer luta”, comenta.

visibilidadePlurais – grupo de apoio à causa LGBT da UTFPR – Câmpus Curitiba

Matheus Bueno, estudante de Comunicação Organizacional da UTFPR, conta que descobriu sua orientação sexual aos 14 anos de idade, quando percebeu que o corpo masculino chamava mais a atenção que o corpo feminino. Hoje, aos 24 anos, é gay assumido para a família e os amigos e mora com o companheiro. “A comunidade gay ainda sofre com muitos preconceitos, porém cada vez mais informações são difundidas e então a sociedade se faz pensar sobre o assunto”, afirma o universitário, que diz já ter sofrido discriminação, mas não ao ponto de o abalar emocionalmente.

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Aos 24 anos, Matheus Bueno é gay assumido e mora com o companheiro. Foto: acervo pessoal

Já a estudante de Enfermagem, Tainá Rebeque, que mora em Santa Terezinha de Itaipu, no Oeste paranaense, lésbica assumida (desde os 13 anos), para não se expor, prefere não falar abertamente com todas as pessoas sobre sua orientação sexual. “Ainda vivemos sob violência e discriminação por grande parte da sociedade. A intolerância deles ainda assusta e, por vezes, até mata”, comenta a universitária, atualmente com 21 anos de idade, que tem uma irmã transexual.

visibilidade2Tainá Rebeque, lésbica assumida desde os 13 anos. Foto: acervo pessoal

 

NOME SOCIAL NA UTFPR

A Instrução Normativa (IN) nº 001/2015, elaborada em conjunto pelas pro-reitorias de Graduação e Educação Profissional, de Pesquisa e Pós Graduação e de Relações Empresariais e Comunitárias da UTFPR, de abril de 2015, assegura a utilização do nome social a alunos e alunas, cuja identificação civil não reflita sua identidade de gênero. Com isso, a Universidade busca garantir, no âmbito da instituição, pelo mesmo, o desejo acerca da autoidentificação.

Para tanto, podem solicitar a utilização do nome social alunos matriculados ou registrados nas diversas modalidades de cursos e programas oferecidos em todos os campi da UTFPR, assim como servidores e pessoas que participam das modalidades de cursos e programas de formação ofertados em função de acordos ou convênios. Pessoas inscritas em quaisquer atividades acadêmicas, culturais ou desportivas, organizadas pela Universidade, também podem ser contempladas, mediante solicitação, formalizada por meio de requerimento, que será encaminhado à Diretoria correspondente.

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Após a alteração no cadastro, o nome social passa a ser usado em diários de classe, crachás e até nos endereços de correio eletrônico. O nome social passa a ser usado, também, por toda a comunidade universitária, no âmbito da UTFPR. O nome civil é mantido na emissão de documentos oficiais, como declarações, histórico escolar, certificados e diplomas. Já em cerimônias de colação de grau, a outorga é realizada considerando o nome social, porém na ata consta o nome civil da pessoa.

 

MESCADO DE TRABALHO

A visibilidade LGBT e a aceitação ascendente da identidade de gênero levou à mercantilização crescente em torno dessa temática. Nos Estados Unidos, por exemplo, nas grandes celebrações do orgulho gay, empresas como Netflix, McDonald’s, Apple e Walmart, dentre outras, investem altas cifras para vincularem suas marcas aos eventos voltados ao público LGBT.

Na contramão de todo esse aparente empoderamento, o mercado de trabalho ainda parece hostil à população LGBT. Além de muitas pessoas não se sentirem à vontade para afirmar a orientação sexual ou a identidade de gênero no trabalho, algumas empresas barram LGBTs em cargos de chefia.

No ano passado, em estudo realizado pela Santo Caos, uma consultoria de engajamento, 43% dos entrevistados afirmaram ter sofrido discriminação por sua orientação sexual ou identidade de gênero no ambiente de trabalho. Intitulado Demitindo Preconceitos – e empreendido com o objetivo de tentar desmistificar e ajudar organizações a entender os desafios e toda a dificuldade enfrentada por essa parcela da população – a pesquisa apontou que, no Brasil, cerca de 18 milhões de pessoas se assumem LGBT, porém a diversidade sexual e de gênero ainda é tratada na sociedade e no mercado de trabalho de maneira preconceituosa.

visibilidade4Ambiente de trabalho reflete o cotidiano da sociedade, que inclui preconceito contra a diversidade.

De acordo com dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), a situação desse público é pior, pois cerca de 90% delas ainda estão se prostituindo no Brasil. Mesmo com bons currículos, acabam rejeitadas nas entrevistas por não serem compreendidas em seu autorreconhecimento.

Recentemente, em outra reportagem da AG Comunique, Anderson Gomes, diretor de Combate às Opressões do Sindicato dos Trabalhadores em Educação das Instituições Federais de Ensino Superior no Estado do Paraná (Sinditest-PR), comentou sobre essa realidade. Segundo ele, “as pessoas LGBT conseguem empregos periféricos ou escondidos em telemarketing ou são cabeleireiros estereotipados. Não existem outros (empregos) porque na hora da entrevista elas já são cortadas”.

 

(*) Estudantes de Comunicação Organizacional da UTFPR – Câmpus Curitiba

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