Criatividade para enfrentar a crise

Empreendedores apostam na economia criativa para ressignificar produtos e serviços e propõem novo conceito para o consumo

Reportagem de Bianca Costanski, Bruna Figueiredo, Camila Mancio, Juliana Virgolino,
Letícia Cordeiro e Thiago Viana (*)

Deibd Rodrigues, 37 anos, começou a sua carreira profissional no ramo de vendas, chegou a iniciar os estudos em administração, mas o talento na cozinha o levou para o mercado da gastronomia. Após reunir capacitação profissional na área e atuar em praticamente toda a cadeia produtiva tradicional no setor gastronômico, há pouco mais de seis meses o cozinheiro optou por empreender no ramo e propor um novo conceito de experiência gastronômica. “O Paladar Musical surgiu no um momento em que eu e meu sócio já não nos enxergávamos mais no mercado de trabalho da gastronomia tradicional, que hoje se configura em um sistema bastante viciado”, comenta o cozinheiro que a partir de uma postura de contestação do mercado tradicional, passou a integrar um coworking de projetos voltados ao desenvolvimento do setor gastronômico, o Coletivo Alimentar.

Economia Criativa

Com o Coletivo Alimentar, Deibd Rodrigues tem uma nova forma de renda

O mesmo aconteceu com a designer Bruna Andrade, uma das sócias e fundadoras do Projeto Oficina Gasp. Com apenas R$ 70 no bolso, a inquietação de quem acredita em um negócio e o capital intelectual de designers com muita vontade de empreender, surgiu a marca de calçados Gasp, que já está no mercado há quatro anos. “Eu e meus dois sócios já trabalhávamos com projetos de design desde o primeiro período da faculdade, até que o Renan, um deles, nos falou que o seu pai teve uma fábrica de sapatos nos anos de 1980 e que, por conta de mudanças na economia naquela época, acabou quebrando, mas que o pai sempre teve vontade de voltar a trabalhar com o ofício. Ele nos convidou, então, para ajudar a retomar esse sonho. Mais por curiosidade, acabamos aceitando o desafio”, comenta Bruna. Ainda segundo ela, foi preciso cerca de um ano para conceituar a marca, aprimorar técnicas, adquirir ferramentas, construir o atelier, até que o projeto passasse a funcionar plenamente. Hoje, na verdade, a Gasp é um escritório que presta serviços de consultoria em design para terceiros e possui um projeto de desenvolvimento e venda de sapatos e outros produtos em couro e algodão.

Deibd e Bruna são dois exemplos de brasileiros que encontraram no empreendedorismo uma forma de driblar e superar a crise econômica que se arrasta pelo país desde 2011 e que, hoje, resulta em uma massa de mais de 14 milhões de desempregados, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para eles, mais do que oferecer produtos os quais as pessoas já estão acostumadas a consumir, é preciso se diferenciar agregando valor, oportunizando experiências diferentes ao seu consumidor, gerando emprego e renda. Essas são as principais características que definem a economia criativa.

De acordo com professor de economia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Armando Costa, pesquisador e autor de artigos que exploraram o desenvolvimento da economia criativa no Brasil, apesar da ideia já se desenvolver de forma plena em países como a Austrália e a Inglaterra, desde o início dos anos de 1980, as maiores discussões sobre o assunto só surgiram a partir do início do século XXI. “Os empreendimentos, nesta área, caracterizam-se principalmente pelo emprego da criatividade e da capacidade intelectual de uma ideia. A partir daí, a economia criativa pode ter diversos impactos na sociedade em que ela se desenvolve, seja na mudança do entendimento das atividades econômicas, seja gerando riqueza efetivamente, como na empregabilidade”, explica o especialista.

No Brasil, a indústria criativa cresceu cerca de 70% nos últimos 10 anos, de acordo com dados da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), que elabora um estudo bianual sobre a Cadeia da Indústria Criativa no país. O estudo mais recente da Firjan, publicado em 2016 com dados referentes aos anos entre 2013 e 2015, revelou que, no período, a economia criativa havia movimentado mais de R$ 155 bilhões e já respondia por 2,64% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, gerando mais de 900 mil postos de trabalho. O relatório revelou também que, apesar de uma sensível queda em relação ao último estudo, de 2012, a média de remuneração no setor criativo, cerca de R$ 6.270 em 2015, é mais de duas vezes maior que a média de remuneração dos empregados formais brasileiros.

Infografico economia criativa

Apesar de não haver números mais recentes a respeito deste assunto, os especialistas na área garantem que a realidade atual é ainda mais animadora. “Períodos de crise, no geral, nos trazem problemas, mas também apontam para oportunidades. Quando as pessoas ficam desempregadas, ou não tem outra alternativa, elas desenvolvem novas empresas, novas atividades econômicas. Muitas delas voltadas para a criatividade e capacidade intelectual”, sugere o professor da UFPR.

PARANÁ – No Paraná, de acordo com o estudo, os empreendimentos criativos responderam por quase 2% do PIB do estado em 2015, isso representou um faturamento de quase R$ 6 milhões. A média de remuneração dos criativos praticamente não sofreu alteração no período estudado e fechou em torno de R$ 5.030,00 em 2015.

Em relação ao desenvolvimento dos empreendimentos criativos no estado, a Firjan indicou que o setor de consumo, que abrange áreas como o design, arquitetura, moda e publicidade, obteve o maior crescimento no estado em relação a participação de profissionais, chegando a mais de 45,5% deles atuando nesta área. Em segundo lugar, aparece o setor de tecnologia (pesquisa e desenvolvimento, biotecnologia e tecnologia de informação e comunicação), com 34,8% dos profissionais, seguido do setor de mídias (editorial e audiovisual), com 12,4%, e cultura (patrimônio e artes, música, artes cênicas e expressões culturais), com 7,3%.

No que diz respeito à remuneração média, o mapeamento revelou que o setor de tecnologia liderou o ranking estadual, com salário médio de R$ 6.888. O setor de consumo ficou com o segundo lugar, com R$ 4.597 de remuneração média. Mídias apresentou a terceira maior remuneração, R$ 2.982 e, por fim, o setor de cultura, com média de R$ 2.345.

Ainda segundo o estudo da Firjan, entre as profissões criativas que mais cresceram entre 2013 e 2015, estão aquelas diretamente relacionadas à agregação de valor e valorização da experiência do consumidor. Para o cozinheiro, estes indicadores são animadores, pois corroboram suas ideias em relação à mudança de pensamento no fazer gastronomia. “Nos eventos do Paladar Musical, buscamos ir além de apenas servir um prato. Procuramos proporcionar uma experiência gastronômica que ultrapassa o simples prazer de comer. Apresentamos história, conceito. As pessoas dividem as mesas com desconhecidos e saem daqui fazendo novos amigos”, explica. A profissão de chefe de cozinha, inclusive, aparece em segundo lugar no estudo da Firjan entre as que mais geraram postos de trabalho no período, com um incremento de 43,2%.

Já com a Gasp, a grande aposta está na atribuição de valor ao trabalho manual, à utilização de material reaproveitado e ao consumo consciente. “Nossos produtos, desde a  criação, modelagem e produção, são todos feitos artesanalmente, a mão. Produto por produto. Tudo o que utilizamos é proveniente de resíduos, recuperando muito material que já existe no mundo, transformando o que seria descartado em produtos”, detalha Bruna.

Casa 102 - A economia criativa como estratégia para driblar a crise econômica.

Oficina manual da Gasp

Hoje, em Curitiba, um dos maiores projetos ligados à economia criativa está sendo desenvolvido pela prefeitura. O Vale do Pinhão tem o objetivo de transformar a cidade em referência em inovação, fazendo com que universidades, investidores, grandes empresas da iniciativa privada e startups possam trabalhar juntas para fortalecer e desenvolver negócios inovadores na capital. O projeto envolve instituições como a Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), Associação Comercial do Paraná (ACP), Federação do Comércio (Fecomércio), Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), Pontifícia Universidade Católica (PUC-PR), Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas no Paraná (Sebrae), UFPR e Universidade Positivo.

O CAMINHO DAS PEDRAS

Apesar do cenário altamente promissor, empreender no setor criativo exige muito mais que uma boa ideia. A consultora do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas no Paraná (Sebrae), Walderes Bello, enfatiza que muito além disso, é preciso ter conhecimento e utilizar ferramentas que possam tornar essa boa ideia em uma vertente de negócios, com a capacidade de prover aquilo que é a maior característica dos negócios criativos: potencial para gerar emprego e renda. “É muito importante não confundir o trabalho da indústria criativa com o simples trabalho manual que não exige uma capacidade intelectual específica. O artesanato, por exemplo, está dentro do escopo do que seria um trabalho na área criativa, mas ele só vai se configurar desta maneira quando apresentar uma criação, uma proposta de designer e agregação de valor. Do contrário, ele será somente um trabalho manual”, pontua a consultora do Sebrae.

Para quem já possui uma ideia, Walderes aconselha atuar em duas direções. A primeira é procurar uma consultoria especializada para desenvolver a ideia no âmbito criativo. Uma vez que esta ideia já esteja madura, o segundo passo é procurar o Sebrae, que pode ajudar na parte da gestão. “A nossa parte é ajudar o empreendedor a olhar a sua ideia como um negócio, fazer um plano de negócios, planejar a comercialização e a comunicação do seu produto ou serviço. Oferecemos isso por meio de cursos, palestras, consultorias, capacitações. Contudo, o mais importante é que o empreendedor queira ter este olhar de negócios e não se restringir apenas à parte criativa”, orienta.

Walderes Bello - SEBRAE

“É preciso ter um planejamento estratégico para que boas ideias se tornem uma forma de economia”, explica a consultora do SEBRAE

Tanto para a Bruna quanto para Deibd a transformação de realidades já é algo concreto em suas vidas. “A maior transformação, pra mim, foi trocar uma carreira de alguns anos em ambientes muito corporativos, com hierarquia tradicional, muitas vezes abusivo, exploratório e machista, para trabalhar em um negócio próprio, com aquilo que eu acredito ser mais ético e correto”, afirma a sócia da Gasp. Para Deibd, empreendedor há apenas seis meses, a grande contrapartida do Paladar Musical ainda não é material. “A maior parte do que faturamos com o projeto acaba sendo reinvestido no próprio projeto. Neste momento a maior transformação que ele nos trouxe foi espiritual, no sentido de enxergar o nosso potencial para realizar algo utilizando as ferramentas corretas, compartilhando conhecimento, desenvolvendo uma ideia agregando pessoas e fazendo aquilo que a gente gosta”, declara.

(*) Os autores são discentes do 3º período do curso de Comunicação Organizacional da UTFPR.

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