Não é só uma sacola

O uso doméstico e organizacional de sacolas plásticas é um mau hábito dos brasileiros que gera grandes riscos ambientais

Reportagem de Caroline Dallagrana, Danilo Siqueira, Giulia Boiko, Luísa Sampaio e Naara Martins (*)

As organizações vêm se adaptando às necessidades dos consumidores e do planeta. O aumento de campanhas de conscientização com relação ao aquecimento global e questões ecológicas trouxe uma nova necessidade ao mercado. No entanto, ainda há muitas medidas que podem ser adotadas para minimizar os problemas e uma delas é a diminuição do uso de sacolas plásticas.  As sacolas plásticas são produzidas a partir de uma resina derivada do petróleo, recurso natural não renovável, chamada polietileno. Além das consequências geradas durante sua produção, muitas são descartadas de maneira inadequada, o que gera mais poluição e contribui para o entupimento de bueiros e aumenta significativamente o risco de enchentes.

No Brasil, a utilização de sacolas plásticas tornou-se um hábito devido sua comodidade, pois além de ser a maneira mais popular de transportar mercadorias, elas são utilizadas posteriormente para depositar os resíduos domésticos. Sendo assim, a consciência em relação às consequências do uso de sacolas plásticas pode existir, mas as alterações de hábitos e comportamentos são dificultados devido a conveniência que elas oferecem. Ainda assim é possível estimular a substituição delas em outras situações, a fim de diminuir grande parte do impacto ambiental causado.

As discussões sobre o tema são abordadas frequentemente e sua relevância se tornou tão grande que já foi assunto da Campanha do Ministério do Meio Ambiente (MMA) com o título “Saco é um saco”, visando a redução do uso das sacolas plásticas. Além disso, o Ministério divulga em seu site, desde 2009, dados impactantes a respeito do uso de sacolas plásticas: anualmente, são consumidas entre 500 bilhões e 1 trilhão de sacolas plásticas no mundo, e 1,5 milhão de sacolinhas são distribuídas por hora no Brasil. Informa também que para a produção de sacolas são consumidos petróleo ou gás natural (ambos recursos não renováveis), água e energia, são liberados efluentes (rejeitos líquidos) e são emitidos gases causadores do efeito estufa. 

O Ministério do Meio Ambiente, por meio de seu portal, ressalta três atitudes que contribuem para a diminuição do uso das sacolas e quaisquer outros itens recicláveis, e devem ser tomadas pelos cidadãos, mais conhecidas como 3R’s: reciclar, reduzir e reutilizar.  No caso das sacolas plásticas, reduzir faz referência a refletir sobre a necessidade de utilizar as sacolas todas as vezes que forem feitas compras, aproveitar todo o espaço da sacola e colocar todos os produtos possíveis em uma só. Também pode colocar na própria mochila/bolsa ou, para situações em que a compra é pequena, carregá-los até seu meio de transporte.  O consumidor pode reutilizar as mesmas sacolas levando-as para o local de compra novamente ou dando a elas outra utilidade.

(Fonte: AG Comunique, a partir do Ministério do Meio Ambiente)

Tendo isso em vista, torna-se papel de todos – população e organizações, principalmente comerciais, que fornecem sacolas – contribuir para a diminuição do uso deste produto e, consequentemente, evitar problemas ambientais futuros.

O papel dos supermercados

Jamir Steffler, gerente de setor do supermercado Condor da Av. Marechal Floriano, afirma que a empresa adota alternativas às sacolas plásticas há mais de seis anos. “Nem todas as sedes do Condor trabalham com alternativas. Nesta, todas as sacolas oferecidas são biodegradáveis. Sacolas retornáveis são vendidas nas prateleiras próximas aos caixas por um valor de aproximadamente R$4,00”. O gerente afirma ainda que promovem campanhas de incentivo para que clientes levem suas próprias sacolas retornáveis e oferecem caixas de papelão em suas lojas. “Para mim, as pessoas ainda não abrem mão totalmente das plastificadas pois armazenam seus lixos nelas”, conta Steffler. 

Caixas de papelão em supermercados

O Condor Av. Marechal Floriano oferece caixas de papelão como alternativa às sacolas plásticas e premia o consumidor que as adota ganha um cupom para participar de sorteios (Foto: Luísa Sampaio)

Já em outro estabelecimento de Curitiba, o Mercado Hauer, as sacolas plásticas utilizadas são biodegradáveis e a alternativa oferecida é a sacola de ráfia. “Antigamente a sacola de ráfia era de graça, mas eu não costumava ver os clientes utilizando ou devolvendo, por isso, passei a cobrar por elas”, informou Walter Maccagan, dono e gerente do mercado. Ele diz ainda que apenas 1 a cada 10 pessoas traz a própria sacola retornável e que campanhas efetivas de uso sustentável de sacolas para compras ainda são escassas. “Sinto falta de campanhas mais efetivas do poder público para incentivar a população a adotar outras formas de levar as compras. É preciso entender que estamos prejudicando nós mesmos”, conta Maccagan.

Os dois casos demonstram que o comércio de Curitiba tem se adaptado à causa, oferecendo, além de sacolas biodegradáveis, uma opção de escolha mais sustentável, feita de ráfia ou tecido, que pode ser reutilizada. É um cenário que reflete as mudanças que devem ser feitas, mas ainda não foram completamente concretizadas. São necessárias mais campanhas e ações, inclusive governamentais, para incentivar essa mudança de hábito dos curitibanos e brasileiros.

Soluções legais para o problema

Um projeto de lei em tramitação na Câmara dos Vereadores de Curitiba, proposto pela vereadora Kátia Dittrich (SD), visa proibir a distribuição gratuita ou venda de sacolas plásticas em todos os estabelecimentos comerciais da capital paranaense. Segundo a autora da proposta, ao proibir somente a distribuição das sacolas pelos supermercados, a população optaria pela compra, então, o projeto propõe a proibição total, tanto das biodegradáveis como das não biodegradáveis. Caso a proposta de lei seja aprovada sem modificações, ao descumprir a lei, os estabelecimentos estariam sujeitos à multa.

Natália Doro (31), assessora jurídica da vereadora Kátia Dittrich diz que o objetivo do projeto de lei é estimular os consumidores a adotarem alternativas mais sustentáveis ao transportar mercadorias, como sacolas reutilizáveis e caixas de papelão. A ideia está diretamente ligada à gestão do lixo, pois, segundo Natália, cerca de 70% dele é composto por sacolas plásticas que demoram mais de 400 anos para serem completamente degradadas. 

Como a proposta pretende, também, a proibição da venda das sacolas, somente os sacos de lixo biodegradáveis seriam utilizados para o descarte de lixo. Segundo a vereadora, esta troca aceleraria o processo de decomposição, pois, ao contrário das sacolas plásticas, eles são produzidos com diferente material, que se decompõe mais rápido, e possuem uma capacidade maior. A assessora diz ainda que “apesar disso, as sacolas biodegradáveis acabam sendo um pouco mais frágeis do que os sacos plásticos normais, nesse caso, para a efetividade do uso, a quantidade usada será maior, e, portanto, a finalidade do produto pode não ser eficaz”. A proposta ainda está para aprovação na Câmara de Vereadores de Curitiba e ainda não há previsão para ser votada.

Opinião do especialista

As sacolas plásticas demoram centenas de anos para se decomporem, e, muitas vezes, são descartadas incorretamente. Quando chegam aos rios e mares, têm um impacto ainda maior. Segundo o professor Edson Luiz Pizzigatti Corrêa, graduado em engenharia agrônoma pela Universidade Federal de Lavras (UFLA) e doutor em ciências pela Universidade de São Paulo (USP), as sacolas podem ser confundidas com alimento por aves, peixes e mamíferos marinhos. Estudos recentes mostram que isso pode alterar em nível hormonal a fauna de rios e mares.

O professor chama a atenção também para algo que tem ocorrido com frequência em grandes empresas: o chamado esverdeamento. Para Corrêa, isso ocorre quando empresas utilizam a proposta ambiental para se promover e não com o verdadeiro objetivo de preservar o meio ambiente.

Edson Luiz Pizzigatti Corrêa, doutor em ciências pela USP chama atenção para os efeitos ambientais do plástico como lixo (Foto: Danilo Siqueira)

Normalmente, as sacolas plásticas demoram cerca de 400 anos para decomposição total. No caso do uso doméstico, esse número pode ser ainda maior, visto que, além da sacola, deve haver a degradação do material que está dentro dela.

Ainda não há soluções definitivas quanto ao uso de sacolas plásticas. Mas a conscientização do consumo do produto deve estar cada vez mais presente em campanhas e na comunicação das organizações. “O processo educativo deve estar atrelado a tudo, principalmente em questões ambientais. Por isso, campanhas como as usadas em caixas de cigarros, que mostram as reais consequências em relação ao uso das produto, podiam ser uma forma de passar a mensagem aos consumidores”, sugeriu Corrêa.

(Fonte: AG Comunique, a partir do Ministério do Meio Ambiente)

De modo geral, o problema enfrentado pelo uso de sacos plásticos ainda está longe de ser resolvido. Entretanto, é crescente o número de pessoas e organizações preocupadas em conscientizar a população de que essa prática compromete o meio ambiente e, consequentemente, a vida de cada um. Por isso, é importante que campanhas e informações sobre o assunto estejam sempre sendo divulgadas e expostas de forma que o indivíduo sinta-se parte desse meio e que ele pode fazer algo para mudar o cenário.

(*) Os autores são discentes do 3º período do curso de Comunicação Organizacional da UTFPR.

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