Mobilização para além do simples uso da maconha

Movimento social enfrenta preconceitos e luta pela descriminalização do uso da maconha em Curitiba

Reportagem de Vitor Ilha (*)

A legalização da maconha no Brasil já é tema recorrente na sociedade e adentra os campos institucionais de debate. A pauta entrou em discussão no Supremo Tribunal Federal (STF) em meados de 2015, quando apenas três ministros, de onze no total, teriam votado. O ministro Teori Zavascki, morto em janeiro deste ano, que deveria dar sequência à votação, pediu uma interrupção do julgamento para melhor analisar o caso. Desde então, esse assunto nunca mais foi tratado pelo Supremo.

Com o julgamento sobre a descriminalização ainda em aberto, resta ao substituto de Teori, o ministro Alexandre de Moraes, utilizar o pedido de análise para apresentar seu voto ao plenário. Alexandre é conhecido por ter uma posição contrária a ideia de regulamentar o uso da maconha no Brasil, indicando que a legalização da droga ainda pode estar bem distante de se cumprir.

Cartazes formam a frente da caminhada pela legalização da maconha em Curitiba (Foto: Pedro Nunes)

Em contrapartida, existem aqueles que ainda buscam um posicionamento favorável do supremo a respeito do tema, como, por exemplo, o Partido Popular Socialista (PPS) que, na última sexta-feira (19), entrou com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade no Supremo, com o objetivo de assegurar o uso da Cannabis Sativa para fins medicinais juntamente com a importação de medicamentos a base de Canabidiol (THC). Alguns movimentos sociais em cidades brasileiras também estão na luta para legalizar o uso da maconha no país, como é o caso da Marcha da Maconha Curitiba que, de acordo com sua página oficial online, tem como missão: informar, educar e publicizar o tema “maconha” como um todo, almejando tornar legal o consumo e o plantio da cannabis

O movimento

O movimento Marcha da Maconha chegou, no Brasil, por volta dos anos 2000. Em Curitiba, a Marcha já está fazendo seu décimo primeiro aniversário. André Feiges (35), um dos organizadores da Marcha da Maconha Curitiba e advogado do movimento, diz que o grupo é auto-organizado, aonde as pessoas que simpatizam e que querem participar ajudam como podem. André comenta que o maior foco do movimento é a legalização total da maconha, tanto para cultivo próprio quanto para fins comerciais a fim de evitar comportamentos coercitivos de violência. O advogado ainda relaciona essa política com a maneira caricata que os ideais do movimento são, geralmente, tratados pela mídia.

Como advogado da Marcha, André realiza os trâmites burocráticos para a realização da Marcha da Maconha Curitiba, que ocorre todos os anos, desde sua criação. Segundo ele, o processo é simples, visto que o direito de manifestação é garantido pela constituição brasileira. As condições são que a marcha ocorra sem o uso de armas e que as autoridades sejam avisadas para que não haja duas manifestações no mesmo espaço, disponibilizando o horário e trajeto.

Organizador e advogado do movimento Marcha da Maconha de Curitiba, André Feiges (Foto: Pedro Nunes)

Ana Karla (22), é estudante de Terapia Ocupacional, e além de organizadora do movimento, também é uma das responsáveis pelo Batucannabis, bloco musical que ensaia desde o começo do ano para performar no dia específico da Marcha. Karla explana que o movimento social não existe apenas para organizar a Marcha da Maconha e ir às ruas. O movimento ainda promove uma semana de debates a respeito da legalização da droga, a SEDA – Semana de Debates Antiproibicionistas, que acontece anualmente em algumas universidades de Curitiba e tem como finalidade ir além da mobilização coletiva pelas ruas da cidade, abordando questões como o uso medicinal, industrial e recreativo da maconha, e tratando do verdadeiro significado do movimento, a fim de quebrar o tabu e aprofundar a reflexão de temas essenciais para a construção de uma sociedade mais igualitária e livre de preconceitos.

O preconceito maior, segundo Ana Karla, é em relação ao tabu de tratar a maconha como porta de entrada para outras drogas mais pesadas. Contudo, ela se diz otimista para quebrar esse tipo de pensamento, já que o uso da maconha no tratamento medicinal tem sido muito mais abordado pela mídia, desmistificando aos poucos a visão preconceituosa a respeito do assunto. Os participantes da Marcha da Maconha são, em sua grande maioria, jovens da periferia que são diariamente oprimidos pelas autoridades e veem na marcha, uma maneira de fumar maconha livre de qualquer tipo de repressão. Ana Karla reitera que o intuito da Marcha não é apenas para fumar, e sim lutar por questões mais importantes como o fim do genocídio desses jovens de periferia, que em sua grande maioria são negros sendo os mais afetados pelo tráfico existente devido a falta de regulamentação para o uso da maconha.

Ana Karla, organizadora do movimento e participante do bloco Batucannabis (Foto: Pedro Nunes)

A marcha

A 11ª Marcha da Maconha de Curitiba ocorreu em um sábado, no dia 06 de maio, reunindo aproximadamente 3,5 mil pessoas, segundo os organizadores. Por volta das 15 horas, já havia uma certa aglomeração próxima à Boca Maldita, no centro de Curitiba. O evento começou, aproximadamente às 16 horas da tarde, quando os manifestantes se dirigiram até o Palácio do Iguaçu, sede do governo do estado do Paraná.

A manifestação contou com muita música, comandada pelo bloco Batucannabis, que distribuiu folders com todas as letras das canções que seriam entoadas durante o trajeto. Muitas famílias e até mesmo crianças acompanharam a caminhada, constituindo um público bastante diversificado, além do público que compõe a maior parte do movimento Marcha da Maconha Curitiba.

Bloco Batucannabis (Foto: Pedro Nunes)

Todo o trajeto da marcha foi acompanhada por um pequeno contingente da Polícia Militar, que apenas escoltou os manifestantes. O evento foi muito bem organizado e ocorreu de forma pacífica, não havendo nenhum episódio alheio aos ideais dos participantes, que vão além do pensamento de utilizar a cannabis apenas de maneira recreativa. Ubirajara Vidal (38) é participante assíduo das edições da Marcha, e afirma que a descriminalização pode trazer benefícios em diversos âmbitos, como o farmacêutico, têxtil e o uso industrial. “Eu estou aqui pela legalização da maconha e na luta pela garantia dos direitos”, declara Vidal.

Esta edição da Marcha da Maconha de Curitiba ocorreu, simultaneamente, em mais de 10 capitais no Brasil, e até mesmo fora do país, como em Londres, Nova York e em Roma, na Itália. O evento acontecerá sempre no mês de maio, todos os anos, pois, para o movimento, a luta contra a descriminalização da maconha ainda não acabou.

(*) O autor é estudante do 3º período de Comunicação Organizacional da UTFPR

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