A mobilização política on-line expressa nas ruas

Movimentos Sociais contemporâneos tomam as ruas explorando a internet para o engajamento em causas conjuntas

Reportagem de  Bianca Costanski, Bruna Figueiredo, Camila Mancio, Juliana Virgolino, Leticia Cordeiro e Thiago Viana (*)

No último dia 17 de maio, a divulgação da gravação do áudio de uma conversa entre o proprietário do frigorífico JBS, Joesley Batista, e o presidente Michel Temer, iniciou um novo ponto de tensão e agravou a instabilidade política e institucional que se instalou no país desde o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Na conversa, entre Joesley e Michel Temer, gravada pelo empresário, dentro do Palácio Jaburu, o proprietário da JBS conversou com o presidente sobre diversos assuntos, entre os quais como vinha agindo para obstruir o avanço de investigações de parte da operação Lava-jato, e como vinha ‘comprando’ o silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha. Ainda durante a conversa, Joesley teria recebido anuência de Temer em relação a estes assuntos. As interpretações mais críticas em relação à conversa destacaram a postura conivente do presidente em relação às atitudes descritas pelo empresário.

As notícias sobre conteúdo do áudio incentivaram, imediatamente, nas redes sociais, a organização de diversos atos contra o governo federal e em favor da renúncia do presidente. Diante de denúncias que geraram, inclusive, 13 pedidos de impeachment por crime de responsabilidade.  Esse tipo de mobilização on-line, com a convocação de pessoas para as ruas, tornou-se comum em grandes cidades por todo o mundo nos últimos anos. Em Curitiba, dois atos foram marcados pela internet para o dia seguinte da divulgação do áudio, 18 de maio de 2017.

Fora Temer Curitiba

Em Curitiba, manifestação na Praça da Mulher Nua pedia a saída de Michel Temer da presidência no dia 18 de maio de 2017 (Foto: Camila Mancio)

PRIMAVERA ÁRABE – Movimentação parecida ocorreu em países do norte da África e do Oriente Médio há cerca de 7 anos, em um movimento que ficou conhecido como Primavera Árabe. Com o auxílio das plataformas digitais, cidadãos insatisfeitos com as condições de vida devido à falta de democracia e à crise econômica começaram a difundir suas opiniões, propagando suas ideias e lançando vídeos que mostravam como estava a situação daqueles países naquele período. Esses conteúdos alimentaram a indignação da sociedade civil,  incitaram uma revolução e deram origem a protestos. A utilização das plataformas digitais foi condição determinante para que isso pudesse acontecer.

Já no Brasil, viu-se algo parecido no ano de 2013, quando este formato de movimentação popular articulada no ambiente digital tomou conta das ruas. Primeiramente, da capital paulista, quando o Movimento Passe Livre (MPL) lutava contra o aumento da tarifa de transporte público em ônibus em São Paulo. Naquele momento, vários outros movimentos viram uma oportunidade de reivindicar suas demandas e grande passeatas foram realizadas por todo Brasil, porém, com uma característica muito forte: não havia um objetivo comum. As reivindicações eram extremamente difusas. O que era uma manifestação por 20 centavos foi ganhando força e, logo, inúmeras demandas estavam sendo reivindicadas pela população nas ruas. O movimento, que começou nas redes sociais e com um objetivo específico, logo tomou as ruas do país, se tornou difuso e tomou enormes proporções. Segundo dados do Ibope, as manifestações de 2013 tiveram o apoio de 84% da população brasileira. Milhões de pessoas foram às ruas em uma das maiores mobilizações públicas da história do Brasil.

De acordo com o sociólogo Herbert Blumer, em seu capítulo de livro ‘Sociedade como Interação Simbólica’**, os movimentos sociais são empreendimentos coletivos que estabelecem uma nova ordem, que surgem de insatisfações sociais, desejos e esperanças de novos sistemas e programas de vida. No Brasil, os movimentos sociais se intensificaram a partir dos anos 70  em consequência da Ditadura Militar. Desde então, diferentes acontecimentos têm levado a população brasileira às ruas para protestar em função de uma causa específica, como por exemplo: aumento da tarifa de ônibus, projetos de emenda constitucional e insatisfação com seus representantes políticos. No caso das últimas manifestações, que ocorreram neste final de maio, inclusive em Curitiba, a divulgação dos áudios envolvendo o presidente Michel Temer.

RENUNCIA, TEMER! – Os atos do último dia 18 de maio em Curitiba tinham um objetivo comum: o pedido de renúncia ao presidente Michel Temer. Contudo, a partir desta pauta principal, novamente muitas outras foram somadas. Outra coisa comum às manifestações anteriores é que, mais uma vez, a principal ferramenta de mobilização utilizada pelos organizadores, estava no meio digital. A reportagem da AG Comunique esteve nos dois atos, ambos na região central da cidade, e conversou com representantes destes movimentos para compreender o uso das plataformas digitais como ferramenta de comunicação e mobilização.

Carlos Augusto Pegurski, coordenador Geral do Sindicato dos Trabalhadores em Educação das Instituições Federais de Ensino Superior no Estado do Paraná (Sinditest), esteve presente em um dos atos e destacou a celeridade com que as coisas acontecem na internet. “A comunicação via redes sociais digitais interfere  drasticamente na maneira com as pessoas se organizam. Em menos de 24 horas após o vazamento dos áudios, já conseguimos articular diversos atos relâmpagos nos grandes centros do país”, ressaltou. Na Praça Santos Andrade, o fundador da Frente Resistência Democrática, César Augusto Ferreira, pontuou que todas as mídias sociais são importantes para engajar a população. “O contato com diversos canais de mídia alternativa são essenciais para viralizar as intenções de movimentos como a FRD. Assim podemos conversar com as pessoas e procurar agir de maneira unificada”, comentou.

Carlos Augusto Pegurski - sinditest

Carlos Augusto Pegurski, do Sinditest (Foto: Camila Mancio)

A Central Única dos Trabalhadores (CUT) também estava representada em um dos atos pela sua presidente estadual, Regina Cruz. A presidente da CUT no Paraná falou que, para ela, as redes sociais são importantes para promover uma comunicação mais efetiva, mas que estas ferramentas devem ser utilizadas como acessórios e que os atos públicos têm mais valia, para envolver as pessoas nos movimentos, por exemplo. Já Clara Lume, do Levante Popular, afirmou que a comunicação do movimento é feita de acordo com os recursos disponíveis. Por isso, aplicativos como o Facebook e Whatsapp são as ferramentas mais utilizadas tanto para comunicação interna como externa. Por sua vez, para o militante Pedro Carrano, da Organização Consulta Popular e coordenador do Jornal Brasil de Fato no Paraná, é necessário utilizar todas as mídias alternativas disponíveis, porém ele ainda acredita na mídia impressa. “Buscamos uma aproximação com o público. Um contato direto. Por isso que nós mesmo fazemos a distribuição do nosso jornal nos terminais e nas ruas”, comenta.

Ainda que as redes sociais sejam, hoje, poderosas ferramentas para os movimentos sociais, para alguns deles, as reuniões presenciais ainda são soberanas, como afirma Luan Souza, do movimento Primavera Cidadã. Segundo Luan,  “o que nós queremos fazer, é simplesmente que a sociedade perceba que tem condição de transformar a própria realidade e a realidade coletiva.”

*Estudantes do 3º período do curso de Comunicação Organizacional da UTFPR.

**Texto publicado no livro ‘Internet e Mobilizações Sociais: transformações do espaço público e da sociedade civil’, organizado por Bernardo Sorj e Sergio Fausto.

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