Moda sem gênero, a renovação do unissex

Genderless é a nova tendência do universo da moda e defende a livre-escolha sem delimitações do que é feminino e/ou masculino

Reportagem de Adilson Junior, Joyce Franco, Juliele Nadalini e Weverton César Cruz (*)

A moda sem gênero, conhecida atualmente como Genderless ou Agender, é um movimento que responde a uma demanda social, com intuito de quebrar paradigmas e em um primeiro momento trazer uma reflexão coletiva. O conceito sem gênero tende a ter um papel didático, no sentido de não reprimir o uso de cores e roupas. Esse movimento busca equalizar sistemas antigos, e trazer a pouca diferenciação de gêneros, que envolvem a infância: nos brinquedos, nas cores, nos objetos e principalmente no debate limitador entre o feminino e o masculino. Como resposta a questão de gênero em roupas, a moda Agender vem garantindo, para muitos, o conforto, bem-estar e a livre escolha do vestuário diário.

Este movimento encontra-se em um momento de conquista de representatividade, mas essa questão é discutida há muito tempo. Segundo Luan Valloto (26), professor de Design de Moda na Universidade Positivo (UP), formado em design pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e especialista em Ecodesign pela Design Ao Vivo, esse debate foi representado inicialmente pelos gregos. Estes, com um retângulo, fizeram o quiton, a roupa mais característica dos gregos, essa vestimenta era uma espécie de túnica branca, utilizada por homens e mulheres. Avançando na história, nota-se o papel de grandes estilistas como Coco Chanel (1920) e Yves Saint Laurent (1960), que mudaram totalmente o cenário da moda feminina de suas épocas.  

Jessica Maria Taube (20), estudante de Design Gráfico na UTFPR, gosta da ideia de usar roupas do seu pai desde pequena. Ela costura desde a infância e sempre fez roupas para ela mesma, já que não achava o que queria nas lojas. A ideia inicial de Taube não era comercializar suas peças, porém, quando os seus amigos viam suas produções se interessavam, foi quando decidiu começar a vender. Começa a analisar seu tempo pois tinha vontade de criar porém já  estudava Design de Moda na Pontifícia Universidade Católica (PUC) no mesmo ano que começou a cursar Design Gráfico na UTFPR. Decidindo direcionar seu foco à sua marca e desistir de Design de Moda. Para ela, qualquer pessoa pode usar vários estilos de roupa. Várias pessoas, assim como a designer, tem assumido este pensamento.

Segundo Vinicius Schane (36), historiador, especialista em Gestão de Negócios de Moda e Professor de Pós Graduação em Moda na UP, a moda é fruto de um debate. E é por meio dela que se expressam ou se escondem identidades. Por um lado, ela participa do debate para acrescentar o discurso, por outro, seu papel é criar e aproveitar  os  novos nichos de mercado, afinal, a engrenagem que move a indústria da moda é poder vender, relata Vinícius.

Em contrapartida, algumas marcas se posicionam pensando em produção e consumo sustentável, como a Milho Guerreiro que surgiu com peças alternativas e que não eram de fácil acesso há uma década. De acordo com Francieli Morbi (34), graduada em Marketing e Sócia da marca, muitas marcas locais estão nascendo; se sustentando e se dedicando ao tema. “A preocupação não é apenas com a peça ser de um determinado estilista, mas que o cliente saiba que aquele produto não têm uma mão de obra duvidosa, você pode conhecer a produção e ainda apoiar a economia local. Este público existe e está se expandido gradativamente!”, afirma.

Francieli Morbi

Para Francieli Morbi, sócia da Milho Guerreiro, a moda tem que ser sustentável, de alegria e bem-estar (Foto: Joyce Franco)

Para Francieli, definir que as peças não tem gênero é algo que ocorreu naturalmente, o público para esse segmento já é grande. Como ocorreu com Jessica, os clientes pediam as roupas e ela costurava de acordo com as medidas fornecidas. Ela nunca precisou separar suas peças por gênero, ela às ajusta para o molde de cada pessoa, assim como a moda é um tendência que em muitas situações não tem planejamento. O gênero não é suficiente para vetar o uso de roupas em geral.  

TENDÊNCIA E VALORIZAÇÃO DO AUTORAL

O consumo, está passando por transformações, segundo Vinicius Schane, “as tendências sociais apontam a valorização de negócios mais genuínos, sejam grandes ou pequenos. A ideia de que somos muitos, com diferentes gostos contraria a lógica da produção em massa e abre espaço para segmentos, identidades, propostas de vida diferentes. Ainda assim tudo é questão de acesso.” Fundamentado neste movimento, nascem marcas com essas preocupações, como a Florim, marca criada por Stefany Vechi (23) graduada em Design de Moda na Universidade Positivo.

A Florim emergiu de um trabalho de conclusão de curso (TCC) de Stefany e sua colega, Muriel Seguro que buscavam criar peças para o público infantil, fugindo do padrão. Segundo Stefany, é necessário que este tema seja debatido principalmente no segmento infantil, que é muito experimental, e lida com a sexualização das crianças pela mídia, a questão das cores rosa e azul, e a quantidade de camadas nas roupas infantis que não oferecem conforto, ela complementa.  

Stefany Vechi

Stefany Vechi, fundadora da marca Florim, é uma designer de moda que inova no mercado infantil (Foto: Joyce Franco)

Essa euforia no debate da moda sem gênero é importante, a familiarização com o tema, porém, de acordo com Jessica, separar uma nova categoria de moda onde todos os gêneros podem usar é desnecessário “seria legal se essas lojas de departamento trouxessem  uma causa para a mídia, onde podemos usar o que nós quisermos. As marcas que produzem em grande escala, não se preocupam com a causa e sim em vender mais peças para o novo público”. Não é uma solução para um problema social e sim uma alternativa para destacar a marca na mídia.

Para Francieli, por exemplo, a moda agender é um diferencial, uma quebra de paradigmas e não pode ser vista como um produto. O intuito dos produtores de menor escala é que isso seja uma visão e não mais uma mercadoria, que seja enriquecedor, como uma  vertente da moda para quem gosta e se preocupa com a questão filosófica de crença e mudança. A moda é uma maneira de se expressar. Seja como for aplicado esse conceito. É importante a existência do posicionamento das marcas e o compromisso com a causa para ambientalizar os consumidores e prepará-los para novas transformações.

DEMOCRATIZAÇÃO NA MODA

Leonardo Andrade da Silva (18) é consumidor das lojas Zara. Para ele,  a iniciativa da loja de criar uma sessão unissex é interessante, porém há pouca procura por esses artigos, visto que nossa cultura secular define claramente o que é de uso feminino e o que é de uso masculino. É necessário uma desconstrução de paradigmas, o qual acontece por parte de uma minoria ainda inexpressiva de nossa sociedade. Em contrapartida, em lojas mais autorais como a Milho Guerreiro, vendem a mesma quantidade de peças femininas para homens e roupas masculinas para mulheres, cita Francieli. A moda vai muito sobre o gosto da pessoa, mulheres que não gostam de roupas com determinados caimentos vão direto na sessão masculina, isso depende do gosto de cada cliente.

O fato é que as grande marcas conhecem a importância da democratização da moda. Vinicius Schane explica que “inovar nos negócios, tem sido atrair novos públicos, nichos e vertentes ideológicas. Para toda e qualquer marca ou produto – independente do segmento – ter uma causa está na moda” Este primeiro momento de debate trouxe uma reflexão mais que uma ação no design de moda, a questão é: como inserir este conceito, pensando também na prática?

O posicionamento da marcas a respeito deste movimento é um fator que ajuda na disseminação desta causa, por exemplo, para Jessica : não dividir as sessões em masculinos e femininos; adicionar um terceiro provador para as pessoas que não se identificam com nenhum gênero, “claramente, não se trata apenas de vender, necessitamos de um preparo”, ela complementa. Bem como explica Francieli, a bilateralidade destas ações, e o respeito ao público que não está apto a esta mudança, as marcas precisam de um cuidado para não forçar as questões de gênero e ainda não submeter-se a padrões, para a sócia e administradora da loja Milho Guerreiro, “esta conversa tem que começar a existir não só por uma questão de moda, mas por uma questão de respeito ao ser humano, cada pessoa é do jeito que é e precisa ser aceita do jeito que quer ser”.

Jessica Taube

Jessica Taube, Fundadora da marca Milkshake. A moda pra Jéssica é vestir o que ela quiser (Foto: Camilo Mancio)

 

(*) Estudantes do 3º período de Comunicação Organizacional da UTFPR

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