Desafios pós-ingresso no Ensino Superior

Reportagem de Amanda Fernandes, Nicollie Vargas Santos, Pilar Browne e Stephanie Mayer (*)

Desde o início da vida escolar, os alunos são induzidos a pensar que tudo se resume a notas, que só terão sucesso se forem boas. Quando chega a época do final do ensino médio e o vestibular se aproxima, essa pressão aumenta. Amplo conteúdo para estudar, poucas horas de sono, fórmulas para decorar, o estudante quase entra em colapso com tanta informação. Mas, diferente do que muitos estudantes acreditam, ao passar por toda a maratona de estresse que o vestibular provoca, a pressão psicológica perante os estudos não termina com o Enem.

Após passar três anos estudando para um curso sonhado durante o ensino médio, o alívio de ser aprovado em uma universidade pública carrega uma série de expectativas que, muitas vezes, podem acabar. Isso porque, no momento em que o jovem se depara com a realidade, pode descobrir que o curso escolhido não era exatamente aquilo que ele queria. Com base em dados fornecidos pela OMS, o Brasil é o país com o maior índice de ansiedade do mundo e o quinto em depressão. Tratando-se especificamente dos jovens, os estudos são a maior causa dessa ocorrência. 

Desistência do curso dos sonhos – A saúde mental dos estudantes é algo sério e deve ser um assunto abordado e discutido diante da comunidade acadêmica, zelando bela saúde e bem estar dos estudantes universitários. A Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) possui um Núcleo de Acompanhamento Psicopedagógico e Assistência Estudantil, o NUAPE, que se preocupa em prestar todo o apoio e acompanhamento necessário quando um aluno demonstra incidência de problemas psicológicos e emocionais. Também fornece psicólogos à disposição dos alunos e, em alguns casos, encaminhamento para um médico especialista.

Segundo dados do Relatório Analítico de Gestão da UTFPR, o último diagnóstico feito para controlar a porcentagem de evasão total dos alunos do câmpus de Curitiba afirma que 12% de alunos matriculados na universidade abandonaram seus cursos antes da conclusão. O curso de Comunicação Organizacional, por exemplo, apresentou uma taxa superior à média, com quase 20% dos estudantes deixando a faculdade. Já na área de exatas, a porcentagem de alunos de Engenharia de Controle e Automação que saíram foi de 15%, além de apresentar que mais da metade dos estudantes ativos estão em retenção parcial. Ou seja, com matérias reprovadas, um dos maiores motivos de desistências.

A psicóloga Tânia Regina Cordeiro, em entrevista à AG Comunique, revela que os transtornos causados por problemas acadêmicos podem possuir os mais diversos sintomas: distúrbios no sono e na alimentação, crises de choro, sudorese, nervosismo, perda de concentração, baixa assiduidade aos compromissos acadêmicos, depressão, e muitos outros. Ela frisa que a família do estudante deve estar sempre atenta para mudanças repentinas de comportamento, como o isolamento. Também devem ter sempre a abertura para o diálogo, já que, dependendo do grau da ansiedade, isso também pode gerar consequências no ambiente social, familiar e de lazer da pessoa afetada.

Tânia ressalta que o primeiro passo para quem procura ajuda é se consultar com um médico ou um psicólogo para que assim haja uma avaliação a priori para o encaminhamento correto. Em muitos casos, o tratamento é feito com psicoterapia e psiquiatria se necessário o controle dos sintomas de ansiedade e afins.

Exemplos dentro da UTFPR –  H.K.(**), antigo estudante de Engenharia de Controle e Automação, um dos entrevistados para AG Comunique relata que: “Para a maioria dos estudantes universitários, o começo é uma festa, mas uma hora ela acaba e o semestre também. Os trabalhos e provas se acumulam e a única solução é utilizar das preciosas horas de sono e descanso para dar conta da densa demanda de afazeres acadêmicos.”. O resultado de tanta pressão foi crises de pânico e desistência do curso.

A.N*, aluna do curso de Design na UTFPR, também em entrevista para AG Comunique, relata: “Tudo piora quando a pessoa precisa conciliar estudo e trabalho, e é nesse momento em que a maioria perde o controle”. Para outra entrevistada a pressão foi tão grande que resultou em uma crise hipertensa que demorou 3 anos para chegar ao fim.
Para Gilberto Souto, Pró-reitor adjunto de graduação e educação profissional da UTFPR, a forma mais eficaz de combater a evasão é melhorar cada curso individualmente, aprimorando estrutura, qualidade de ensino e prestar assistência aos alunos.

Segundo o Pró-reitor, para entender melhor os motivos da desistência, a conjuntura deve ser analisada sob três fatores: O fator individual, o externo e o interno. O fator que a universidade possui maior controle é o interno, que abrange a estrutura e qualidade dos cursos. O individual é muito mais específico do aluno, inclui problemas que fogem do controle da instituição, como saudade da família, e é o que vai definir se evasão ou não. Gilberto Souto também explica que existe a evasão boa, que acontece quando o aluno percebe que o curso escolhido não é o correto para ele, e se permanecesse, tornaria-se um profissional frustrado. Porém, ao ingressar no ambiente universitário, descobre pela vivência, o que realmente gostaria de fazer e então migra de curso.

Tendo em vista esses fatores, a UTFPR está desenvolvendo um plano piloto que tem como objetivo diminuir o número de alunos abandonam a universidade por meio de de melhorias individuais em cada curso. Esse projeto é constituído por uma metodologia que realiza pesquisas qualitativas e quantitativa feitas com alunos de cursos distintos, análise de dados, planejamento de ações de melhorias e após a aplicação das possíveis ações, a realização de uma nova pesquisa para analisar a eficácia. Trabalhando assim, para a construção de uma universidade cada vez mais desenvolvida e preparada para auxiliar e atender as necessidades dos seus alunos.
(*) Estudantes do 3º período de Comunicação Organizacional da UTFPR
(**)A AG Comunique ocultou o nome dos entrevistados para preservar sua identidade.

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