Comunicação e cultura: um binômio para o público curitibano

Produtores e organizações culturais buscam ferramentas para atingir seu público

Reportagem de Nicollie Vargas, Pilar Browne e Stephanie Mayer (*)

Dificilmente uma manifestação cultural passa despercebida do pelo público que almeja atingir, mas para isso não acontecer, é necessário que haja comunicação. O elo entre esses dois conceitos, tornou-se fundamental com o passar do tempo, pois não importa a esfera que incentive a cultura, seja pública ou privada, não há maneira de disseminar cultura para a sociedade, se não por meio da comunicação.

De acordo com Jean Caune, professor e pesquisador da Universidade de Grenoble na França, em seu livro Culture et communication: convergences théoriques et lieux de médiation, os campos da Cultura e da Comunicação, notavelmente amplos, são próximos e convergentes; no entanto, também o são distintos e específicos. Segundo o autor, caminham em trilhas próximas, imiscuem-se, dialogam, trocam influências, delimitam procedimentos sociais, definem comportamentos individuais.

Cultura, segundo o filósofo alemão Hegel, tem por definição a organização de vários modos de vida de uma sociedade. Sendo assim, a concepção de cultura estaria relacionada com as formas de como os homens vão compreendendo, representando e se relacionando com os elementos que compõem a sua existência, como o trabalho, religião, linguagem, ciências, artes e a política. Genericamente, o termo “cultura” é usado para retratar as manifestações artísticas usuais, como a pintura, a dança, cinema e o teatro. Tomando esse conceito como base, um número significativo de brasileiros não pratica nenhuma atividade cultural. 

De acordo com a pesquisa sobre hábitos culturais dos brasileiros, realizada pela Fecomércio-RJ e pelo Instituto Ipsos em 2016, a cada oito brasileiros, apenas um vai ao teatro. Nesta mesma pesquisa, 47% dos entrevistados disseram não fazer nenhum programa de lazer cultural, o que reflete diretamente a dificuldade da efetivação do direito à cultura no país. E o principal motivo apontado como fator limitador foi o preço de ingressos, uma vez que custam entre R$70,00 e R$ 90,00, quase 10% do valor do salário mínimo atual.

Para equilibrar esse cenário, o governo impõe leis nacionais, estaduais e municipais de Incentivo à Cultura como uma forma de estimular o apoio da iniciativa privada ao setor cultural, como é o caso da Lei Rouanet. Ou seja, o Governo Federal abre mão de recolher parte dos impostos (que recebe de pessoas físicas ou jurídicas), para que esses valores sejam investidos diretamente em projetos culturais que ajudam a mudar e até transformar o cenário da comunidade. Tratando-se da esfera estadual, no caso Paraná, existe o Programa de Fomento e Incentivo à Cultura do Paraná – PROFICE, e no âmbito municipal, a Lei Municipal de Incentivo à Cultura,  implantada em 1993, é uma importante ferramenta para a produção cultural na cidade, que já obteve como resultados centenas de espetáculos teatrais, livros, vídeos, filmes, exposições e publicações que valorizam a história e as tradições da cidade.

A Fundação Cultural de Curitiba é uma organização municipal que exerce funções ligadas ao incentivo à cultura na cidade, em conjunto com a Secretaria de Estado da Cultura e tem como objetivo principal, através da comunicação, fomentar e disseminar cultura em toda a sociedade. Promove programas como CuritibaLê e Carnaval de Curitiba. Segundo a jornalista Ana Luzia Miranda, que responde pela Fundação Cultural de Curitiba, a cultura é importante para o crescimento e desenvolvimento da sociedade, ela é elemento de transformação. A Fundação teve um papel fundamental na inserção da cultura e a comunicação serviu como ponte entre a FCC e a população, divulgando e promovendo todas as ações da organização. Segundo a jornalista, a comunicação possui um papel fundamental para ajudar a Fundação alcançar seus objetivos, pois é a comunicação que expõe e divulgar as informações,  fazendo com que a população entenda porque a cultura é importante e porque ela tem que ser levada a todos.

A Fundação Cultural possui diversos projetos em conjunto com a Secretaria de Estado da Cultura – SEEC, um órgão estadual responsável por toda implantação e administração das políticas culturais do Estado. A SEEC realiza ações que valorizam, incentivam, promovam, transmitam e garantam a estabilidade dos bens culturais.

Segundo Alisson Diniz, assessor de comunicação da SEEC, a comunicação atua em conjunto com a cultura no sentido de tornar público todas as ações desenvolvidas pela Secretaria, leva à população informações sobre exposições, palestras, oficinas, editais para ocupação de espaço, prêmios de artes visuais e literatura, além de diversos programas que precisam do conhecimento público para que as políticas culturais tenham o resultado desejado. É necessário que os produtores saibam da existência desses programas e participem, assim como o público final.

De acordo com o assessor, a Secretaria ampliou o diálogo com a comunidade artística e cultural,  através reuniões e debates sobre políticas culturais com o Conselho Estadual da Cultura, o CONSEC. Hoje o Governo do Paraná, por meio da SEEC, apóia diversos festivais pelo Estado como o Festival Internacional de Música de Londrina, Festival de Música de Paranavaí, Bienal Internacional de Curitiba, entre outros eventos de relevância. Também possui o Programa de Fomento e Incentivo à Cultura do Paraná – PROFICE. Um desejo de muitos anos de toda a classe artística paranaense o qual, o Governador Beto Richa implantou na sua gestão. No primeiro edital aprovou 174 projetos com proposta de realização de 341 ações culturais em todo o Estado, com recursos de 25 milhões para 2016-2017. O segundo edital está aberto e serão destinados 30,3 milhões para 2018-2019, num total de 55,3 milhões em quatro anos.

O órgão Estadual também promove editais de circulação como: Domingo Tem Teatro e o Prêmio Arte Paraná. Esses dois editais têm como objetivo premiar produções prontas que serão apresentadas em diversas cidades do Estado. O Domingo Tem Teatro homenageia espetáculos para o público infantil, a entrada para o evento é a doação de um brinquedo para o Programa do Voluntariado Paranaense. Já o prêmio Arte Paraná tem como finalidade levar à comunidade, espetáculos de dança, teatro, música e circo. Além de incentivar os museus, a SEEC em  parceria com a Coordenação de Patrimônio Cultural, instituiu o registro de bens materiais com o objetivo de preservar a história. Em 2016 foi realizado o Agente de Leitura, programa que atendeu cerca de 30 mil crianças e adolescentes nas cidades de Apucarana, Foz do Iguaçu, Paranaguá e Pinhais. Um projeto pensado para beneficiar diretamente crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social.

A DiversidArte, é um programa, também promovido pela Secretaria, de inclusão por meio da arte e de valorização da vida. Realizaram em março o Mês da Mulher, uma forma de valorizar e reconhecer o valor da mulher na sociedade. A organização também possui outros projetos em execução como o   aplicativo para celular Cultura Paraná, onde todos os produtores podem incluir a programação cultural da sua cidade além de manter diversos espaços culturais na cidade, formando um conjunto de ações pontuais na valorização à cidadania. Vale ressaltar que nenhuma dessas ações chegaria ao público sem o auxílio da comunicação.

Caixa Cultural

A Caixa Cultural Curitiba é uma iniciativa da Caixa Econômica Federal, uma entidade do Governo que tem como objetivo incentivar a Cultura em todo brasil. Em Curitiba a Caixa oferece aos seus visitantes a Galeria da Caixa, um espaço de exposições, a Galeria do Térreo, a qual funcionava a antiga Sala da Memória e que em 2014 foi reformada e o Teatro Caixa, com capacidade para 125 pessoas, que abriga eventos de música, dança, teatro e cinema.

annalice.jpgDe acordo com  Annalice Del Vecchio de Lima, assessora de comunicação da Caixa, a comunicação atua incentivando a cultura, levando informações sobre espetáculos, exposições e outros eventos promovidos pela organização. Divulga entrevistas e reportagens sobre os artistas na Agência de Notícias da Caixa, para que o jornalista e qualquer outra pessoa tenha acesso a este material e possa aproveitá-lo. Também serve como instrumento enviando release e imagens e estabelecendo um bom relacionamento com a imprensa cultural, para despertar o interesse sobre os eventos realizados. Além deste trabalho realizado pela assessoria de imprensa, a Caixa Cultural também divulga seus eventos por meio de folders com a programação, nas redes sociais e no site da Caixa Cultural.

Ao ser questionada se acredita que comunicação e cultura são indissociáveis, Annalice afirma que a comunicação pode utilizar aspectos da cultura como ferramentas e conteúdo. Por exemplo, pode-se aproveitar o estilo ou outro aspecto de uma obra ou do espetáculo do qual se vai falar para deixar o texto do release mais instigante. Para se atingir públicos diversos, é preciso buscar meios diversos para se comunicar: jornais, rádio, sites, redes sociais etc. Também é importante encontrar formas diversas de comunicar: de forma mais objetiva e direta, de maneira mais sofisticada etc.

A Caixa possui um edital específico do próprio banco como maneira de incentivar a cultura. Alguns projetos até podem ter apoio de Leis de Incentivo, como livros que são lançados no espaço da Caixa Cultural. Mas exposições e espetáculos precisam ser aprovados por este edital.

Outro enfoque

Além de organizações, produtores culturais também reconhecem a importância da comunicação ao disseminar cultura, principalmente ao trabalhar de forma independente. O produtor Rodrigo Pereira Nunes afirmou que ao produzir um espetáculo, o essencial é que a informação chegue até o público desejado.

Rodrigo Pereira

Segundo ele, hoje em dia está cada vez mais difícil a divulgação da autêntica cultura, por uma série de fatores, entre eles, a má formação de profissionais da comunicação e os espaços cada vez mais restritos no mercado. “A Comunicação vêm se pautado apenas em produtos descartáveis. Músicas de baixa qualidade tocam a todo momento no rádio, um mês depois somem e são substituídas por outras péssimas composições. Isso é algo que destrói a cultura autêntica e apenas emburrece a população”. Cultura, é algo muito além das definições trazidas no começo. Tudo é cultura. “Um povo que possui acesso e consome diariamente cultura é mais desenvolvido. É um povo com mais educação, que respeita e entende tradições e essa é a essência da cultura, é educar a população e permitir que ela questione e renove manifestações culturais com qualidade, e isso é papel quase que exclusivo da comunicação”, finaliza o produtor.

(*) Estudantes do 3º período de Comunicação Organizacional da UTFPR

 

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