A fogueira não pode apagar

Por Thiago Viana

Esperadas por muitos durante o ano inteiro, as festas juninas divertem pessoas de todas as idades oferecendo brincadeiras, danças e comidas típicas que são a cara da cultura brasileira, apesar de sua origem europeia. Em entrevista à AG Comunique, o doutor em educação histórica e professor de história do Brasil do Curso Positivo, Daniel Medeiros, explica porque as festas juninas estão tão enraizadas na cultura brasileira, em especial na Região Nordeste, e como o fenômeno da globalização pode estar tirando aos poucos a essência desta tradição. Prof Daniel Medeiros

AG COMUNIQUE: Qual a relevância cultural das festas juninas para a história do Brasil?

DANIEL MEDEIROS: Na verdade, apesar de ser difícil precisar uma data, é possível dizer que as festas juninas possuem uma origem europeia e estão vinculadas ao início das organizações sociais. Originalmente, estas manifestações comemoravam o solstício, a época da colheita, fertilidade e fartura. Por isso, até os dias de hoje as festas do mês de junho tem uma associação muito grande aos produtos da terra, provenientes da agricultura. Outro simbolismo está ligado à fogueira, que seria uma homenagem a Prometeu, que roubou o fogo dos deuses e deu aos humanos a possibilidade de manipulá-lo, inclusive para o cozimento de alimentos. Então, quando os portugueses chegaram ao Brasil, eles trouxeram essa cultura para cá e aqui ela foi se ressignificando ao longo do tempo.

AG: Qual foi o papel da igreja católica nessa difusão? 

MEDEIROS: A igreja católica, sendo uma instituição milenar, sempre teve como característica muito forte a adequação. Uma das adequações que ela fez ao longo da sua história está justamente ligada a essas comemorações pagãs. Então, na medida em que estas festas estavam tão enraizadas nas práticas agrícolas, foi muito mais fácil adaptá-las que reprimi-las. O mês de junho foi escolhido, então, para comemorar três santos cujo as datas de nascimento são desconhecidas. No caso de São João, inclusive, há uma curiosidade porque estamos falando de São João Batista, que é apresentado pela igreja como precursor de Jesus. É ele quem anuncia Jesus como salvador, então, a igreja escolheu o dia 24 de junho por ser exatamente 6 meses antes no nascimento de Jesus. Tudo isso acabou funcionando muito bem porque as práticas comuns – a oferta de alimentos, as danças, a fogueira – foram mantidas, mas agora associadas a personagens do panteão cristão católico. 

AG: Existem comemorações semelhantes em outros países nessa época do ano? No que elas se aproximam ou se diferenciam das festas juninas brasileiras?

MEDEIROS: Particularmente não sei dizer. Acredito que a própria Europa não comemora mais esta época do ano com tanta intensidade como vemos aqui no Brasil. Na América Latina, também desconheço grande comemorações com características semelhantes. Provavelmente, outros países possuam algum tipo de comemoração neste sentido, pois são países igualmente religiosos como Brasil, mas se houvesse a intensidade como há no Brasil, nós teríamos alguma referência.

AG: Por que algumas regiões desenvolveram uma relação mais forte com essas manifestações culturais?

MEDEIROS: É interessante observar isso porque quando falamos das festas de junho, há uma associação imediata com o Nordeste brasileiro. Isso é muito simples de explicar por conta de uma coincidência climática. Enquanto que no Sudeste, Centro-oeste e Sul do Brasil as temperaturas baixam com a chegada do inverno, no Norte e no Nordeste o inverno é caracterizado pela chuva e, principalmente no interior nordestino, a chuva é garantia de um bom plantio. Inclusive há a crença de que se chover no dia dos santos (13, 24 e 29), o inverno será bom. Por isso estas festas ganharam este caráter regional atribuído ao nordeste. Já em regiões como o Sul e o Sudeste, estas comemorações até estão presentes, mas como uma emulação da herança europeia.

AG: Que tipo de modificações essas manifestações sofreram ao longo do tempo?

MEDEIROS: O que eu observo é que com todo o fenômeno da globalização que vem sendo construído nas últimas décadas, as manifestações culturais, de maneira geral, vêm sofrendo um processo de ‘estandarlização’. Isso aconteceu com o Carnaval do Rio de Janeiro e tenho observado que vem acontecendo o mesmo com as festas juninas. Eu sou nordestino, me criei no Ceará, e eu gostava muito de festas juninas na minha infância. Cresci, mudei pra Curitiba e há dez anos, mais ou menos, eu estive em Campina Grande (PB), e observei que as festas juninas estão perdendo a sua espontaneidade, deixou de ser uma festa onde as pessoas nativas daquele lugar participam efetivamente do momento e se divertem, para um espetáculo feito para atrair pessoas de fora para assistir, um produto turístico. Acredito que essa é a maior modificação que as festas juninas vêm sofrendo. Mas acredito que isso é um sinal dos tempos e já não muito o que se possa fazer no sentido de reverter essa característica.

AG: Na sua opinião, a manutenção dessas tradições é relevante? Por quê?

MEDEIROS: Extremamente relevante por tudo o que já conversamos aqui. As festas juninas é uma manifestação tão típica do povo brasileiro, em especial do nordestino, que se caracteriza como uma expressão da diversidade de um país multiétnico, de um território tão grande e formações tão distintas que se faz extremamente necessário manter-se isso com o objetivo de manter tradições e práticas que são marcas da nossa cultura, uma tradição que ainda não se diluiu por inteiro, embora eu continue acreditando que está é uma luta em vão. Eu lamento, mas faz parte do processo.

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