A transição de gênero sob a perspectiva psicológica

Por Giulia Boiko e Luísa Sampaio

Muitas pessoas ainda têm dúvidas e não compreendem como o processo de transição de um transexual ou transgênero funciona. Isto pode causar discriminações ligadas à transfobia e diversas outras formas de agressões. Tendo em vista o quadro brasileiro de violência contra esta população, são necessárias mais pesquisas e informações sobre tais questões, principalmente quanto ao viés psicológico. Sobre o assunto, a psicóloga Bianca Elizabeth de Mello Hascalovici, especialista em terapia da sexualidade e psicoterapia, conversou com a AG Comunique sobre seu papel como psicóloga para a comunidade LGBT, esclareceu dúvidas e explicou conceitos relacionados ao tema.

foto entrevista- giulia e luísaAG COMUNIQUE: Como você definiria papel de gênero?
BIANCA HASCALOVICI: Diante da sociedade, o gênero é aquilo: sexo feminino, sexo masculino. Então o papel de gênero é o papel que eu exerço na sociedade como meu sexo, posso exercer meu papel de mulher, meu papel de mãe, de pai, de profissional.

AG: Identidade de gênero é diferente de papel de gênero?
HASCALOVICI: Sim. Eu posso, por exemplo, ser um travesti. O papel de gênero não está necessariamente ligado à minha sexualidade. Eu, como mulher, posso gostar de me vestir como homem, isso é papel.

AG: Identidade de gênero é uma construção social?
HASCALOVICI: Existem muitas teorias psicológicas que definem de várias formas diferentes os motivos. A que eu acredito é que nasce assim, é mais científica e explicada biologicamente. Isso porque o sexo do bebê é definido antes de concluir o desenvolvimento do cérebro. Com cerca de 10 semanas de gestação, o bebê desenvolve o órgão sexual, enquanto isso o cérebro está sendo formado, e esta formação só se completa na 20ª semana, quando forma-se a identidade sexual do cérebro e a personalidade. O bebê pode ter órgão masculino e personalidade feminina. Pode ser uma construção social, mas todas as teorias, assim como essa, permanecem em constante estudo. Eu trabalho mais com essa teoria biológica.

AG: Qual a diferença entre travestis e transgêneros?
HASCALOVICI: A diferença básica é simples: o transgênero e o transexual sentem que nasceram no corpo errado. O travesti é uma pessoa que veste roupas ou acessórios que são do sexo oposto, mas não necessariamente se sente no corpo errado, é homossexual ou deseja fazer cirurgia para trocar de sexo. É apenas uma questão de expressão. 

AG: E do ponto de vista da psicologia, qual a diferença entre transgêneros e transexuais?
HASCALOVICI: O transgênero está dentro do transexual. Não há uma diferença concreta,  o transgênero se sente nascido no corpo errado, assim como o transexual, mas dizem que a diferença é que este último chega ao meios concretos de mudança de sexo, como cirurgia e tomar hormônios. Nos meus pacientes não vejo muita diferença.

AG: Como a psicologia pode ajudar a comunidade LGBT?
HASCALOVICI: Pode ajudar de muitas formas, esse indivíduo pode se encontrar, porque sofre depressão, ansiedade, é um indivíduo que já tentou se matar, que foi expulso de casa. Trabalhamos a ressocialização dessa pessoa, que sofre na hora de procurar emprego, sofre em casa, na rua, com a saúde pública, então o papel da psicologia é ajudar nesses pontos.

AG: Por que é necessário ter um psicólogo voltado para essa comunidade?HASCALOVICI: O público LGBT é carente de psicologia. Sofrem com família, conflitos individuais internos, depressão, ansiedade. Basicamente o que expliquei na pergunta anterior. É importante porque infelizmente até alguns psicólogos ainda têm preconceito, ainda falam para alguns pais que vão “curar” seus filhos. Eles não têm uma doença, eles não vão “curar” essa pessoa, e enganam os pais e o próprio indivíduo, e seu conflito interior pode piorar ainda mais.

AG: Como os psicólogos podem auxiliar na tomada de decisão que o paciente precisa de cirurgia de designação sexual?
HASCALOVICI: O processo até a cirurgia é feito por uma equipe multidisciplinar. O psicólogo não tem essa autonomia de decisão sozinho. Nós podemos aliviar as angústias, ansiedade, ajudamos na depressão, diminuir o risco de suicídio, buscar a satisfação familiar e com relacionamento afetivos. Auxiliamos o indivíduo a se encontrar e ter certeza do que realmente quer. Após a cirurgia, trabalhamos a readequação do novo corpo na sociedade, entre vários outros fatores.

AG: Quais os principais problemas psicológicos que os transexuais passam?HASCALOVICI: Bom, são vários. Depressão, ansiedade, os trans passam por comportamentos de risco como uso de substâncias, fazer mutilações no corpo, amarrar o seio para não aparecer, suicídio, discriminação, não limpar o órgão masculino, câncer de mama – por não reconhecer o órgão não cuida. Esses são os principais. Falta de ajustamento social e familiar, o que causa um isolamento do indivíduo e piora ainda mais esses fatores.

AG: Como é o processo de transição para crianças trans?
HASCALOVICI: O processo é muito novo no Brasil. A partir de 2 a 4 anos de idade, ela já se sente estranha, mas não sabe exatamente o que é. Quando começa a adolescência, por volta dos 10, 12 anos, ela percebe que quer fazer algo diferente. Antes da chegada da puberdade, a criança faz um tratamento que diminui a velocidade desse processo, fazendo assim, um bloqueio hormonal. Acontecendo este bloqueio hormonal, a mudança corporal é interrompida e não desenvolve as características masculinas ou femininas que ocorrem durante a puberdade. Durante a adolescência é feito um acompanhamento com uma equipe multidisciplinar, formada por psicólogos, assistentes sociais, médicos, entre outros, que irá avaliar se esse indivíduo é mesmo trans. Quando chega em torno dos 16 anos, se já diagnosticada, ela pode começar o processo de hormonização até a cirurgia. Caso a pessoa chegue nesta idade e perceba que não era o que queria, ou que ainda sente-se confusa, o procedimento é reversível.

AG: Você conhece a teoria Queer, acredita nela?
HASCALOVICI: Conheço, a base da teoria é fazer a desconstrução do binarismo sexual. Ela procura provar que não existe apenas o gênero masculino e feminino. Olha, eu convivo com muito público gay, hétero, bi, e até andrógenos, então de certa forma posso dizer que acredito na teoria, tem certa lógica. Porém, no meu consultório, nunca atendi alguém nessa situação.

AG: Você pode explicar o que é o binarismo sexual?
HASCALOVICI: É aquela definição social de que só existe sexo feminino e sexo masculino.

AG: E como a identidade de gênero se relaciona com a teoria Queer?
HASCALOVICI: Não sei se ela se relaciona pelo seguinte: A identidade gênero ainda está no papel binário. E a teoria Queer quer desconstruir isso, quer que o normal seja não existir apenas esses dois sexos tratados na questão de identidade de gênero. Ela não enfoca em homo, bi, em nada, ela acha que a identidade de gênero são formas de expressão, então não se deve impor normas.

AG: O que é e como é causada a disforia de personalidade?
HASCALOVICI: Na verdade, esse nome está caindo.  O nome que está sendo mais usado agora é Transtorno de Identidade de Gênero (TIG), que basicamente é quando o indivíduo não se reconhece com seu sexo anatômico de nascimento, ou seja, o transgênero e o transexual. É caracterizado pelo desconforto e o persistente sentimento de que a “alma nasceu no corpo errado”, como meus pacientes dizem.

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